AS MORTES


Ernande Valentin do Prado

Durante sete anos e meio trabalhei em três hospitais e vivenciei algumas histórias. As que vou contar aqui são as relacionadas à morte.

1

Um dia a mulher teve uma parada cardíaca. Tentamos ressuscitar, mas era a hora dela ir. Foi às 10 para sete da manhã, antes de iniciar o plantão e o dia de toda equipe ficou cinza.

2

Dona Almerinda era pequenina, simpática, engraçada e parece muito frágil. Já tinha 99 anos. Internou diversas vezes ao longo do ano. Sempre rodeada da família, filhos, netos, bisnetos, amigos da família.
Morreu pouco antes das duas da manhã, uns dez minutos depois de minha última passagem pelo quarto. Ainda segurou minha mão e procurou sorrir. Foi sossegada, sem agonia. Acordei sua neta que dormia no sofá e disse que era hora.

3

Cíntia, 26 anos tinha câncer no estômago.  Pediu para morrer em casa. Depois de três semanas passando muito mal, acordou bem. Era domingo e reuniu toda família. Almoçaram juntos, sorriram, brincaram e brigaram como sempre se faz nestas ocasiões. Não teve náusea, não vomitou nem dor sentiu. Depois do almoço deitou-se para descansar, chamou um por um da família e despediu-se. Por último despediu-se do noivo, ali sempre presente desde que a doença apareceu. Pediu autorização e foi embora.

4

Na noite de natal seu Alfredo ainda estava lá. Já tinha seis meses que ia e voltava de casa em intervalos curtos. Toda família em casa, mas ela não faria isso.
Ela disse, ao ver o Papai Noel voluntário sair do elevador e entrar no setor: ele adorava a noite de natal e papai Noel.
Papai Noel, com sino na mão e saco nas costas cheio de balas e pirulitos entrou no quarto de todas as crianças. Por último entrou no quarto de seu Alfredo. Obrigado, disse-me ela no final, mas ele nem percebeu.
Eu sei, disse-lhe, queria que ele visitasse a senhora.
Às seis da manhã seu Alfredo morreu. Ela disse Adeus sem culpa e antes de ir embora pela última vez foi se despedir.

5

Ela passou mais ou menos 20 dias internada. Sem família. Basicamente os técnicos e auxiliares de Enfermagem não a deixavam sozinha. Às 23 horas daquele sábado ela morreu. Uma auxiliar de Enfermagem segurava sua mão. A família chegou com roupas de festa. Estavam nervosos, falavam alto e diziam que ia processar o hospital.

6

Mario passou por uma cirurgia pequena, bem simples. Ele tinha um bigodão enorme e transparecia simpatia por todos os poros.
A esposa, Clarice, mulher bem jovem, loira, alta bonita, ficou de acompanhante os dois dias da internação. Eram dentistas no interior do estado. Na passagem de plantão, às 19 horas, despediu-se da equipe que não veriam mais. No dia seguinte, domingo bem cedo iriam embora.
Noite silenciosa e calma demais, daquelas que davam muito apreensão em qualquer profissional de Enfermagem. Por volta das duas da manhã estava conversando com o médico residente que apareceu no quinto andar sem ser chamado. Coisa estranha e rara de acontecer.
- Está tudo calmo demais e resolvi dar uma volta, disse ele.
Clarice saiu gritando no corredor:
- Acode aqui, acho que o Mario está muito quieto.

7

Dom Pedro, 102 anos. Incontáveis internações nos dois últimos anos. Naquela noite, Juan, seu médico em todas as internações, me chamou num canto e disse:
- Vai ficar aqui a noite toda?
- Vou sim.
- Dom Pedro não quer ir para UTI. Não deixe que o levem se ele parar. Qualquer coisa me liga que venho aqui.
As três da manhã o residente queria lhe entubar e levar para UTI. Eu pergunte:
- Para quê?
Ele não respondeu, apenas empurrou a cama pelo corredor, mas antes de chegar ao corredor Juan chegou.

8

Primeiro quatro Policiais militares entraram correndo e gritando. Carregavam um colega com o peito todo ensanguentado. Tiro no coração, a cabeça pendida para o lado. Lembro até hoje, nunca tinha visto coisa igual.
Deixaram o colega na unidade de trauma. Um dos homens, o mais jovem, agachou entre as próprias pernas e chorou. Foi amparado por um colega mais velho.
Alguns minutos depois entrou todo ensanguentado um sujeito carregado pelos braços por dois policiais militares. As penas arrastando no chão. Do meio das pessoas na recepção um homem correu em sua direção e lhe deu um soco.
- Assassino, gritou ele.

9

Vi uma ambulância encostada na casa de Maria, no fim da rua. As filhas entrando e saindo da sala. Maria teve uma parada cardíaca fulminante.  Não houve o que fazer.

10

A filha carpia o quintal. Usava chapéu e camisa de manga cumprida para se proteger do sol. Dona Gertrudes estava coberto de feridas. Não dava nem para fazer curativo.
 - Tem quanto tempo que está assim?
- Uns três meses, disse ela.
- Vou limpar as feridas, mas vai precisar ir ao hospital, pois tudo que eu posso fazer ainda será pouco.
No dia seguinte a filha passou na UBS para agradecer a boa vontade, mas a mãe morreu no hospital naquela noite.

[Ernande Valentin do Prado publica na Rua Balsa das 10 às 6tas-eiras]


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