AULA DE GEOGRAFIA [maria amelia mano]



AULA DE GEOGRAFIA


      O sonho naquele dia em que pousou a alegria na borda da asa de um pássaro azul. E que ele voasse do cais, da ponta da vela branca para um céu de estrelas nuas, dançarinas de bailes de fantasias.

     Ela, a alegria, dançaria com um dragão, uma princesa, um árabe, um lobo. Dançaria com personagens de estórias e bichos de casa, da terra, do céu e do mar: fantasias das estrelas costuradas pela lua cheia nascida em monte mágico.

       Brincadeira de muitas noites até o cansaço da alegria, o sono, o sonho e o frio que somente um cobertor de relva pode tirar. Relva alimentada de terra quente, macia, aquecida com sol de dia de outono.

       E a alegria descansa aconchegada nos braços verdes esticando os olhos grandes para o mundo e deixando que a tristeza faça seu voo de volta, de ida, de vinda, de viagem infinita e calma.

       E o pássaro azul que seguia sem rumo, cantando canções de esperança e beleza, amor e amizade, ao ver o manto da terra aconchegando a alegria, percebe sua imensa pequenez e solidão. 

       E chora...

      Percebe por instantes o mundo sem sonho, sem raio de luz, sem chuva ou vento. Canta como se engaiolado fosse e se encolhe como se dor sentisse.

      A tristeza acaricia as asas e alimenta a alma doída de sabedoria e medo. Só então, acorda a alegria ao descanso, ao descaso e põem-se a brincar, alegria e tristeza, amigas, parceiras!

      As estrelas querem novas fantasias nos ares e as cores do arco-íris da manhã desenham um sorriso no ar. Brilha a vida em novas sementes que germinam e flores que se abrem. Consolo.

      O mundo recomeça.

    As lágrimas do pássaro se transformam em flor de amor e ele volta a sorrir e cantar ao ver a lágrima-flor desabrochar. Agradece.

      E desde a saída da vela branca do cais, o pássaro passa por muitas noites e dias, tristezas, alegrias, surpresas, cansaços e uma dose de imenso carinho pelo mundo e por vezes, por si mesmo, suas dores, suas viagens e seus destinos.

      Segue como segue o sonho da menina que, olhando o deserto da janela, um dia, desenhou mar, praia, céu azul, estrelas bailarinas, barco e vela e um pássaro azul que voa e navega, chora e ri.

     Lápis de cor no papel branco, descoberta de cores, fantasiando na hora da aula de geografia, escondida da professora, criando caminhos na alma e outros mapas no coração.

[maria amelia mano escreve na rua balsa das 10 às terças-feiras]

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