Quando eu descobri a linha da pobreza

Percentagem da população que vive com menos de US $ 1,25 por dia. Estimativa da ONU 2000-2007.

Não lembro bem quantos anos eu tinha. Quando vi a foto no meu livro de geografia de um menino na África e um texto falando que um bilhão de pessoas vivem com menos de um dólar por dia (linha da indigência) e dois bilhões com menos de dois dólares por dia – a linha da pobreza. 

Na época lembro que um dólar dava mais ou menos três reais e alguns centavos. Lembro também que o preço do pão tinha subido e custava mais ou menos quinze centavos e o Jornal Nacional passou quase um bloco inteiro mostrando vários pães franceses. Falavam sobre vender pão em quilo ou em unidade e discutiam sobre a inflação. Por aqueles dias meu pai pediu para eu comprar pão na padaria, algo raro para a minha casa onde quase sempre tivemos pão caseiro.  Lembro que fui comprar pão para a minha casa e meu pai me deu um real e cinquenta centavos para cerca de 8 pães. Comprei alguns chicletes com o troco, custavam cinco centavos cada um, 8 pães e 6 chicletes. 

Fui caminhando o caminho de casa e pensando nos três reais por dia. Fazia os cálculos pensando só na comida, não cabia ainda nas minhas contas a luz, o gás, o lazer e o conforto. Pensava que se você comesse 20 pãezinhos por dia não ia passar fome. E começava a calcular 8 pães e 1 pastel para passar o dia. Fiz várias possibilidades aritméticas e imaginava se eu tivesse três reais para comer todo o dia como iria fazer – será que iria sobrar para os chicletes?

Quando transformei no cálculo do mês pensava nos 90 reais da sobrevivência. Calculava o que era essencial para minha infância: quanto custava um lápis? Um caderno? Será que eu poderia ter um violão? Esquecia do botijão de gás, do fogo, da saúde… Não incluía na minha conta a conta da higiene, esquecia muitas coisas nas minhas contas. Mas no final das contas chegava na mesma conclusão, que basicamente só dava para o pão (e alguns pastéis, talvez). 

Sento na cadeira da universidade na Irlanda para estudar direitos humanos e de repente a mesma tal da linha da pobreza volta a me encontrar. E os cálculos de infância não ficam tão diferentes, mais coisas incluídas na conta, mas o final é o mesmo, não sobraria dinheiro para o chiclete, nem para viver. O pior, é que a linha não diminuiu de fato desde que era pequena e cresci, parece que a pouca redução foi quase como crescer comigo e com ela várias pessoas que mal podem comprar pão.

Novos conceitos de pobreza relativa e a conversa roda sobre os determinantes da saúde e a importância de diminuir a lacuna da próxima geração (Veja: Documento da ONU Redução das desigualdades no período de uma geração). Mas a lacuna parece que só fica maior, e se eu era (sou?) a próxima geração então caímos no discurso falido da próxima e próxima geração. E talvez em algum outro espaço-tempo uma mesma menina esteja abrindo o seu livro de geografia e descobrindo a linha da pobreza.

Voam abraços,
Mayara Floss

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