CADERNINHO DE VIAGEM V - AS COISAS PRECISAM IR


Maria Amélia Mano

O luar é a luz do sol vestida de humildade
Teixeira de Pascoaes

            Em viagem me deparo com uma artesã que vende braceletes de macramê. Coisa simples, mas caprichada e enfeitada pela energia e sorriso da artesã. Compro uma. Decido comprar uma segunda que, sei, tem igual valor e me surpreendo quando ela me devolve um troco a mais. Tento corrigir, alerto do valor, não peço desconto. A artesã faz questão de me fazer por menos porque é a segunda que compro e, além do mais, me explica: “as coisas precisam ir”.

            Anoto a lição em caderninho de viagem cinza que já quase muda de cor. Termina mais um ciclo. Gosto que os tempos se sucedam. Que venha o caderninho azul que não sabia se era para aventura ou para trabalho. Podia ser um trabalho aventureiro, o que não é raro. E assim decidi que seria até que o virar de uma página me provasse o contrário, assim como sempre nos provam as viradas da vida, escritas, desenhadas, lembradas ou não.

            Presente, o caderninho azul, era promessa de parceria esperançosa em viagens de trabalho aventureiro sempre contadas, cantadas e encantadas para escrever. “Mundo como presente”, diz a dedicatória, “lista escondida”, “voz de ti”... Palavras soltas como somos, soltos, escritos e inscritos neste chão, como são as folhas na estação das luzes que mais gosto, o outono. E planejei desafios a mão no branco do tempo que se fazia dia vivido.

            Veio a mudança. O trabalho aventureiro, afinal, não era o que eu esperava. Doeu entender, desistir. Disse adeus e o programado ficou esquecido no alto das páginas. Muda o rumo. Muda o ritmo. Outra dança. Rasga as folhas de um outono que ainda não chegou? Guarda o caderninho? Ainda não... Pequeno e leve, cabe em qualquer cantinho. Segui levando como amuleto ainda desejoso de destino, respostas, caminhos novos.

            Vou a um show e me encanto com a arte dos bonecos que contam a história de Maria, que passa uma vida lutando para aprender a ler. Na televisão, programa popular de domingo e me espanto com uma reportagem de um menino pobre que recolhe doações de livros em uma malinha de rodinhas e sonha em fazer uma biblioteca na pequena cidade nordestina onde vive. Anoto um título de Mia Couto e sites de contação de histórias...

            Viajo e sonho com momentos em uma livraria mágica da serra. Anoto impressões e se pudesse, anotaria o cheiro de madeira das estantes, o carinho com os cães que transitam como só o fazem em uma pequena cidade: o sempre desejo das coisas pequenas. Escrevo para lembrar de estudar sobre nomadismos, gente que sempre está se despedindo. E vem as frases soltas, ideia de texto futuro, semente de histórias em parágrafos ainda por serem sonhados.

            E vem a noite e o olhar a lua e a frase que cabe no início desse texto. E a sensação de orgulho da menina moça, filha de catadores de papéis, que me avisa, em consulta, que está aprendendo a tocar flauta. Tudo escrito em espaços que eram para outras emoções. Mas essas vieram e vieram de mãos dadas, mostrando a poesia das coisas simples que me tocaram, que me recompensaram o dia, que quero eternizar, que quero partilhar.

            E volto à artesã que me ensinou que as coisas precisam ir. Sim, para que outras possam entrar na nossa vida, preencher o vazio que propositalmente deixamos. Vazio necessário, silêncio mágico, desistência fundamental. Estar repleto sempre é estar sem espaço para uma nova vivência. Achar que as páginas são para grandes viagens também deixa de considerar as pequenas viagens dentro da nossa cidade, do nosso bairro, da nossa casa. Nossas idas e vindas até o encantamento do mundo em nós, nós no mundo.

            E seguirá o caderninho azul, agora em viagem de férias. Esperando, nas estradas ou dentro de mim mesma, descrever uma sensação, escrever uma letra de música, um trecho de poema, um endereço, uma receita, uma história, uma descoberta. Abrir as páginas sem certezas, sem programar e com a curiosidade e o desejo de tudo querer segurar, tudo querer abraçar para não esquecer do carinho. Mas, ao mesmo tempo, se precisar, se pesar na mochila, na viagem, deixar ir.

           

Observação – entrei de férias dia 02, assim, o caderninho está no ar, na estrada até agosto quando tirarei um pouco dele, palavras, para trazer para esse lugar quentinho e protegido chamado Balsa das 10.

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