JOÃO E A IRRADIAÇÃO QUÂNTICA

Ernande Valentin do Prado

João trabalhou das oito às 17 horas na fabrica de Relógios em Manaus, onde tem carteira assinada como inspetor de qualidade. Com uma lupa verificou centenas de mecanismos minúsculos o dia todo. Quando ouviu o sinal de fim de expediente, correu tomar banho, colocou seu próximo uniforme, camiseta e calça jeans. Calcou um tênis surrado. Borrifou perfume no pescoço e nos pulsos. Pegou seu equipamento de trabalho e colocou no estojo. Na hora do almoço tinha tirado para dar uma amostra grátis para os colegas da seção.
A pé atravessou a avenida que separava o local do emprego do local de seu segundo trabalho. João chegou por volta das 18 horas, abriu com cuidado seu estojo, tirou o violão, plugou nos equipamentos, passou os dedos pelas cordas e tirou os primeiros acordes. Começou a cantar.
No palco minúsculo, no centro da praça de alimentação do Shopping, João estava solitário. Ao seu redor cadeiras, mesas, gente comento, olhando seus celulares, crianças correndo de um lado para o outro, brincando, brigando, chorando, sorrindo, gritando. Sua alma saindo pela boa: e nada parecia acontecer, ninguém pareci ouvir.
João contou uma, duas, três, dez músicas.
Nada.
Sons de garfos e facas batendo nos pratos, copos de vidro em choque com as mesas, sacolas plásticas sendo amassadas.
Nada, pensou João, mais uma noite e amanhã começar tudo de novo na fabrica de relógio que conta seu tempo.
Quase no final de seu “expediente” entram quatro pessoas e escolhem uma mesa próxima ao palco. Uma moça com desenho lindos nos braços, uma gestante com sorriso (de gestante), um gordinho com cara simpática e sorriso sincero e um sujeito mal encarado. (Parece que já não estava gostando).
Nada. Só mais do mesmo.
João canta.
A gestante reconhece a música. Sorri para João.
João retribui. No final da música o mal encarado aplaude sozinho.
João se espanta (alguém ouviu!).
No inicio da próxima música João troca olhares cumplices com a gestante. Ela acena com os olhos demonstrando satisfação. João canta mais alto.
No final da música toda a mesa aplaude. Agora João canta diferente. Todas as músicas são aplaudidas. João canta, canta e continua cantando. Outras mesas começam a aplaudir também. Alguém grita uhuuuuuu!
Outros respondem. Agora já tem muita gente contagiada pelo show de João com seu violão. Ele parece feliz!
- Já chegou minha hora de parar, mas na semana que vem, terça e quinta-feira, estou aqui de novo. Para encerrar vou contar duas música antigas para essa mesa aqui, diz João apontando para mesa em sua frente.
- Ele nos chamou de velhos, pergunta o mal encarado para gestante!
Chamou, responde ela.
João se despede. Arruma o violão no estojo e se vai.
- Viu o efeito irradiador, pergunta a moça de braços coloridos?
- Isso é científico, questiona o mal encarado?
- Acho que é física quântica...
- Cantores precisam de aplausos. De dinheiro também, mas cantam mesmo pelos aplausos.
- Acho que melhoramos a vida de alguém hoje...
(E não custou nada, pensa o mal encarado).

Ps. (Quase) tudo é verdade nesta história, embora as lacunas tenham sido preenchidas com a imaginação.


[Ernande Valentin do Prado publica na Rua Balsa das 10 às 6tas-feiras]

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