LEVE PARA VIAGEM

Maria Amélia Mano

Leve, como leve pluma
Muito leve, leve pousa.
Muito leve, leve pousa.

João Ricardo & João Apolinário

                Ah eu queria só palavras leves, ingredientes leves, perfumes leves. Leve que não pese na mochila, na cabeça, no estômago, na vida. Leve que flutue, que voe no ar feito pipa, de cima, cuidando de meninos ruidosos de pés descalços.  Leve como as surpresas boas que vem mansas, quase sem querer. Aprendizados que, em um olhar despretensioso, ganhamos do dia, da vida generosa que nos proporciona esse caminhar.

                Há um mês eu e minha equipe nos propomos a apresentar, em uma atividade da residência, o território da unidade em que trabalho de forma criativa. Fizemos, em um galpão, uma espécie de exposição com muitas intervenções, mostrando as particularidades dos lugares de forma afetiva e crítica. Foi um grande evento que se pensou e se fez junto com a comunidade.

                Eu queria mostrar a ideia de nomadismo, de viagem, afinal, nossa comunidade é produto de uma remoção e ainda, por inadaptação ou violência, continua em trânsito, mudando. Assim, inverti uma mesa, coloquei de pernas pra cima. Passei um fio de náilon bem fino ligando as pernas da cadeira, de forma caótica, formando um emaranhado, uma teia transparente. Em cada fio, preguei, com um microprendedor de roupa, vários papeizinhos amarelos.

                Em cada um dos papéis amarelos, um trecho de um poema. Em um dos pés da cadeira, coloquei a mensagem: “leve para viagem”. Convidei a ler e a levar o poema. A ideia  do “leve” era “levar para viagem”. Mas ao ler novamente, me dei conta de que também a poesia serve para tornar a viagem leve... Assim, meio ao acaso, o “leve para viagem” acabou tendo mais significados. E gostei mesmo que ninguém mais percebesse.

                As pessoas foram mais rápidas, curiosas para verem tudo. Poucas paravam e as que paravam se entortavam para ler as palavras. Uma moradora, Vilma, que passou parte da vida catando papel para reciclagem parou mais tempo lendo os papéis soltos no ar, presos no fio invisível. E quando lhe perguntei o que achava, ela me disse que amava ler.  Sorri com a surpresa. O papel que foi busca e sustento, era também admiração, curiosidade e desejo de saber.

                Lembrei da menininha, Sandra, que me mostra orgulhosa o trabalho da escola, caprichado, colorido. Orgulhosa do desenho, da arte que mostra e assina, silenciosa, só com o sorriso do reconhecimento de algo seu, bonito e admirado. E lembro da leveza dos poemas nos fios, do esforço de Vilma para descobrir beleza. O esforço de Sandra para mostrar a beleza. Esforço com sorriso, esforço com leveza.

                Então, naquele momento solitário comigo, do meu sorriso para dentro de mim, na calmaria do café de fim de tarde que, devagar, vou saboreando. Lembro desses dois momentos de leveza simples que nem roupa secando no varal, cheirando a flor. Que nem passarinho que pousa nas roupas e passa as patinhas no fio ao vento. Que nem poesia leve, que se leve, que se leva para a viagem da próxima caminhada de olhar e coração aberto para essas plumas e esses pousos de vida e mundo.


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