QUANDO ENTRAR SETEMBRO


Maria Amélia Mano

Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar
Uma nova canção
Que venha trazer
Sol de primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender

Beto Guedes

            Faz três anos. Outono. Março ensolarado. Olho as fotos das meninas caminhando na rua. Animadas, colando cartazes coloridos. Mãos dadas em meio a risadas e brincadeiras. Frases que criaram para a semana da mulher. Pássaro, corações e estrelas que desenharam. Os cartazes enfeitaram a rua e depois, as paredes do posto de saúde. Apesar da falta de dinheiro, da falta de diversão, dos abandonos e descasos, o riso é fácil e solto aos 14 anos.

            E, no asfalto, Júlia abraça Lívia. Lívia, tão pequena! Nasceu soropositiva. Não conheceu o pai. Perdeu a mãe cedo. Tia mal dá conta de si mesma. Solta entre muitas casas e mães que adota, Ana vive a vida entre intensidades, riscos pouco calculados e quase morte. Lembro de anos antes, Ana me pedir para ser internada às vésperas do natal porque lá, no hospital, tinha festa. Lembro de, mais tarde, do desejo grande de ser mãe...

            Júlia, tão graúda! Negra, liderança, voz forte, esperançosa, ansiosa por fazer 15 anos. Falante no grupo de adolescentes. Curiosa nas oficinas de cinema. Presença alegre. Faz pouco, um dia, aparece grávida. O pai é menino esperto, sorridente, filho de grande personagem da vila. Mas ele não gosta de trabalhar e “fuma muita maconha”. Júlia vai se virando como pode, estratégias, atestados para tentar benefício para ele. Sem apoio da mãe. Sai de casa.

            A infectologista de Lívia me liga. Está preocupada porque ela já está com a última possibilidade terapêutica, esquema de resgate. Lívia não tem ido as consultas, não tem pego os antirretrovirais. Pergunto na recepção. Falo com o agente comunitário. Olho o prontuário. Meses sem aparecer. Por onde anda a menina que já virou mulher? Por onde anda a mulher que, mais do que eu, mais do que nós, nunca acredita que pode morrer?

            Brinco com a barriga de Júlia. Sei que ela invadiu área para morar, foi expulsa e agredida. Mas ela sorri e vejo a menina, ainda. Um dia, arrisca mais. Coloca uma faca no pescoço do taxista que a transporta. Ameaça e pede 400 reais. Precisa pagar o aluguel. Uma menina vai nascer. Um pai sem emprego. O taxista diz que “podia ser seu pai”. Júlia sente uma ponta de tristeza. Perde tempo. Passantes que avistam a cena chamam a polícia. Júlia é presa em flagrante.

            A data provável do parto é dia 22 de agosto. Júlia vai dar nome “grande”. Nome composto, tipo Micaelly Isadora com “Y” e “l” duplo. Coisa assim. Coisa fina. Júlia nunca cometeu crime. Logo estará de volta. A audiência é dia 31 de agosto. Como está a menina que já virou mulher? Como está a mulher que, mais do que eu, mais do que nós, viveu violência e abandono, privação, viverá parto e terá de crescer tão rápido quanto foi o impulso de tentar arrumar a vida.      

            Olho de novo a foto antiga de um março ensolarado. Semana da mulher. Duas meninas abraçadas. Lívia e Júlia. Sonhos no asfalto, colorindo os muros cinzentos da vila. Pássaro, corações e estrelas desenhadas. Desejo de felicidade e amor. Desejo de “ser brisa”, “ser sol”, “ser semente”. Menina, mulher, chegar os 17 anos com riso solto e fácil é desafio de vida. Estar viva. Desejar ser mãe. Ser mãe. Ser livre. Ser feliz nas quatro estações. Quando entrar setembro.

            Onde anda Lívia? Como está Júlia? Chove e chego em casa com vazio e lamento. Desejo também de “ser sol”, só por hoje. Antecipar a primavera. Sonho de rever as meninas, as mulheres, abraçadas, entre dores e as alegrias de “ser brisa” de outono. Enfeitar de verão os muros de inverno chuvoso, entre vilas e vidas que correm e escorrem. Entre as vidas que geram vidas. Esperança, apesar de tudo. Apesar das perdas “ser semente”. Mais uma menina nascerá. 

               

36.135 mulheres estão presas no Brasil
22.666 é a capacidade do sistema
13.469 em superlotação
3.478 funcionários monitoram toda essa população
647 estão presas em locais inadequados, como delegacias e cadeias públicas
54% identificam-se como negras ou pardas
747 são estrangeiras
67% não completaram o ensino médio
60% não têm parceiro em relação estável
60% respondem por tráfico de drogas
6% respondem por crimes violentos contra pessoas
345 crianças vivem no sistema penitenciário brasileiro hoje
4 a 8 anos é a média das penas cumpridas
18 a 24 é a faixa etária mais comum
0 é o número de rebeliões em todas as 80 penitenciárias femininas em 2013

Referências e fontes:

Comentários

As mais vistas