Das perguntas e fronteiras


RIP Human Rights - Manifestação dos requerentes de asilo na Irlanda. No fundo escrito "Let's make this world a better place to live" - vamos fazer deste mundo um lugar melhor para viver.
"Hoje o tempo escorre dos dedos das nossas mãos
Ele não devolve o tempo perdido em vão
É um mensageiro das almas
Dos que virão ao mundo
Depois de nós
- Engenheiros do Hawaii

Para Margaret, Susana e Maria

Se você tivesse uma malinha para resumir toda a sua vida. O que levaria? Uma mala de sobrevivência,uma mala que levasse sua casa, sua vida. O essencial. Barcos de papel, crianças que fazem do mar cobertor, fugitivos de guerra. O mundo se choca até o próximo comercial de um produto qualquer produzido na China. As mensagens de ajuda não param de correr, mas que ajuda? Enquanto insoluções são propostas, as bombas continuam a explodir, os tiros continuam, os barcos cheios de imigrantes estão em alto mar, a próxima notícia é só questão de tempo - e intervalo comercial (e também audiência). E então, crise mundial mas ninguém tem (re)solução para um visto. Tem pena, ajuda humanitária, buracos  sem fundo. Esse mundo de fronteiras e atravessadores, refugiados, sobreviventes, imigrantes, despatriados, rotulados. Como a humanidade consegue ainda dizer quem entra ou não? Regulação das fronteiras, (des)regulação de sentimentos.

Entre a história que ouvi de uma amiga imigrante fugitiva da guerra do Sudão que ficou sobre custórida do estado irlandês ela me contava a vida viva-presa, a (des)esperança, e os renasceres. Conhecidos como “asylum seekers” ou requerentes de asilo. Ela ficou durante sete anos “hospedada” em um hotel na Irlanda, dividindo um quarto com outras 5 pessoas. Todo o espaço que ela tinha era um pequeno bidê para toda a sua vida, depois de ter resumido tudo em uma malinha. Chegou muito fraca depois da guerra do Sudão, veio com um sonho que ficou parado sete anos neste pequeno quarto. Junto com ela outros países, outras culturas, outras religiões, outras vidas. Para uns sorte fora da guerra, para eles prisão. Tudo nas pequenas beliches do hotel Eglinton. Ela tinha sede durante as noites, mas não se atrevia a abrir uma garrafa de água para não acordar os outros (sobre)viventes, nenhum gole de água para matar a sede. Nenhuma reza para não ultrapassar o limite da religião do outro. As fronteiras foram criadas dentro do hotel Eglinton, ninguém pode passar além do hall do hotel dos imigrantes (além dos imigrantes), do andar de cima, dos quartos, pouco se sabe - uma fronteira (des)conhecido dentro do país. Tem pessoas que desistiram de sair. Não podem estudar, trabalhar, e a comida é apenas a oferecida pelo hotel, pelo governo, pelo (des)favor, é proibido cozinhar. É proibido voltar tarde. É proibido levar estranhos. É proibido. Ninguém pode levar comida para os quartos. Greve de fome, alimentações diferentes do mundo inteiro, resumidas na mesma comida, nos mesmos pratos. Tem gente que não come: religião. E assim vive-se essa vida-meia que quer ser plena. Limitada pelos dezenove euros semanais. As semanas intermináveis. A depressão se espalha, os casais sem privacidade, a privacidade cheia de privações. Provações, desafios e em alguns olhos a esperança. Ela me diz: “Minha vida parou por sete anos, mas agora tenho a minha casa”. O processo andou, mas anda para uns, não anda para outros, ou anda muito devagar. Enquanto troco de rádio escuto uma conversa na rádio local: “o governo é muito bom, dá comida, dá lugar para morar, paga para eles viverem”. Mas o que você come (ou dá para comer) alimenta? Onde você mora te faz viver? Ela passou sete anos num abrigo, outros passaram quatorze, outros se esqueceram, adoeçeram, des(viveram). E o sorriso. O sorriso e a alegria genuina de ter um lar, poder trabalhar, querer (vi)ver. Não é história minha, mas é história contada, vivida, doída e de esperança.
A vista do Hotel Eglinton
Neste meio ainda os imigrantes ilegais. O medo de ser deportado, o medo de fugir, o medo de ser, o medo. Este medo humano de outro humano que vai prender, matar, deixar afogar-se. O medo de ver que o mundo mudou. Que o sonho de atravessar a fronteira de ser mais não é só dos turistas. Não vou ofender o mundo da economia que quer salvar-se matando imigrantes (que parece outro mundo, outro planeta, outra esfera que os fins justificam qualquer meio). Nem as políticas que querem negociar construindo muros. O que mais precisa acontecer? Quantos barcos de papel vão virar, quantas economias vão quebrar, quantos vão se afogar, quantos haitianos no Brasil vão ser má notícia no jornal? Quantos mundos vamos (con)sumir para vermos que as coisas mudaram? Quanto vamos (const)ruir? O que o mundo precisa ver para ver a mudança? Quantos holocaustos, bombas, desastres precisam acontecer? Quanta humanidade matando humanidade? É impossível crescer para sempre - é a economia que controla a humanidade ou a humanidade que controla a economia, a religião, a vida? O que é preciso para criar empatia? O que é preciso para ver mudança? Quantas velas serão acesas?

Quantos? "Limpe o Asilo" (Clear The Asylum Backlog)

Perguntas (in)termináveis. O mundo precisa sacudir, como balança o navio em alto mar carregado de esperanças. Quando existirá uma boa política mundial (in)terna, (ex)terna, terna. Quando vai existir uma política para a vida e não para a economia? Quando não vai mais existir política, e vai existir tolerância? O que vale a pena de penalizar outros? O que levar na mala? Como dizia o cartaz da mulher imigrante: "Let's make this world a better place to live" - Vamos fazer deste mundo um lugar melhor para viver.


Abraços que voam,

Mayara Floss

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