INQUILINOS, REFUGIADOS, NÔMADES, MIGRANTES, EXILADOS, RETIRANTES


Maria Amélia Mano

A pessoa viaja é para ser esperado, do outro lado da mão de gente que é nossa, com nome e história. Como um laço que pede as duas pontas.
Mia Couto

                Nasci e cresci em meio às notícias e ameaças de secas e cheias. Anúncio de invernos por profetas, poetas, pássaros e pai agrônomo. Rezas e nuvens. Elas definiam o trabalho de meu pai e nosso sustento. Trabalho pequeno para a visibilidade, grande para a vida de pequenos agricultores em terras áridas. Quando tinha a belezura do som das águas nas telhas e dos meninos na chuva, o pai distribuía e ajudava a cuidar da semente que virava lavoura. E a lavoura virava festa de padroeira, feira farta, bicicleta, boneca e vestido novo. Quando tinha a quentura do sol esturricante, o solo rachado como os pés dos que plantam, o pai distribuía semente que virava alimento, cesta básica, cadastro para frentes de trabalho em açudes e obras contra a seca.

                Daí, as muitas histórias de gente que ia, quando o sol se vinha e gente que vinha de volta quando o sol se ia. Brincadeira de palavras, ida-vinda-volta-re-volta para aliviar o peso do caixote de madeira ou papelão, o saco de linhagem ou plástico, a mala gasta, o caminhão pau-de-arara para as lavouras de cana e morte, o ônibus Itapemirim para as obras altas de tijolo e cal na cidade-favela. Mundos tão diversos com fronteiras invisíveis, mas rígidas, separando culturas e sotaques, segregando desejos, exilando sonhos, expulsando cidadania, direitos e sorrisos que, um dia, uma noite, abertos, dançaram “Nem se despediu de mim” entre bandeirinhas, fogueiras, quadrilhas, chita, cachaça Pitu, perfume Alma de Flores e beijos roubados.

                Arrumar as coisas e partir. Para a família de minha mãe, filha de ferroviário, era aventura conhecida. Mudança feita de trem. Para o meu pai, homem do campo que buscou o estudo e a sorte onde mais dava condições de sustento, uma necessidade. Só assim, saindo, buscando, conseguiram se encontrar e geraram uma prole que não teme encaixotar pertences e mudar acaba sendo uma ideia sempre presente. Para mim, que já tive três escolas e três casas alugadas em um ano, mudar é caos, sim, mas é oportunidade de estreia e novidade. É jogar fora o desimportante para levar pouco, ter menos trabalho. É desempacotar o que desejei carregar de mais valioso e reordenar na nova casa. É tirar o pó, preparar o canto, recomeçar.

               Arrumar as coisas e partir.  Para alguns moradores do Porto Novo, lugar onde trabalho, é urgência perante a violência e as ameaças de traficantes. É proteger a vida. É chorar mortes. É colocar em risco a casa e o prontuário e atendimento no posto de saúde – sob norma e critérios de área adscrita. É perder vizinhanças e apoios. Para os que são removidos sob ordens, sob destruição do que se foi, é perder referências, ganhar mais lutas. Para os que querem estudar mais, longe, melhor, é aprender outra língua e outro sabor de comida, vento e vida, desafio. É andar de dicionário na rua e se sentir perdido e, às vezes, encontrar o conhecido em um detalhe do chão ou do céu: algum lugar comum que os distantes e as saudades podem anunciar e unir.

              Arrumar as coisas e partir. Para os que fogem de terror, guerra e fome, em muitas fronteiras de um mundo de pátrias de bandeiras cobertas de sangue, é risco de vida. Mar imenso. Ondas que engolem barcos de olhos em fuga, desespero e esperança. Há duas semanas, 34 mortos atravessando para a Grécia. Em abril, 700 mortos no Mediterrâneo. Na praia em dia nublado, o corpo de Aylan, o pequeno menino sírio de 3 anos. No mar, mais travessia. No sertão, na savana, no deserto, mais travessia. Mas e se o sertão vira mar, todos se encontram, se reencontram entre cicatrizes e perdas em algum lugar onde tem boa água de beber, de se banhar, de fazer alimento para todos e quem mais chegar. Nem água demais, nem água de menos.

           Somos muitos e já experimentamos refúgio e exílio. Somos tantos e tantos são os movimentos, tão diversos os sofrimentos. O que é caminho e boa espera para uns, é abismo e medo para outros. Onde achar a igualdade na saída, na chegada, na trajetória? Como dizer  adeus para quem vai e festejar quem chega, em espera e possibilidade, em laço que une a humanidade ao homem em tempos em que humanidades e homens estão em terras separadas? Resta, então,  se lançar ao sertão e ao mar. Em repente imaginário, atirar âncoras e cordas, fazer pontes. Fincar uma bandeira com todas as cores. Banir fronteiras. Cantar canções e receber. Abraçar o que resta de nós, o que somos nós, todos, nômades, seres temporários nessas vidas. E, sempre que o vento deixar, sempre que o tempo quiser, arrumar as coisas e partir.
               



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