“A liga que não faz nada”

"(...) não gosto de discutir. Prefiro escrever. 
Todos os dias eu escrevo. Sento no quintal e escrevo." - 
Maria Carolina de Jesus

 “A liga que não faz nada” entre outras frases como “a liga que só filosofa”, “a liga que escreve sonetos”,  “o pessoal que cheira cola”, “a liga desorganizada”. Cotidiano de pessoas, acadêmicos do curso de medicina, que vivem no terreno árido e hospitalocêntrico da vida universitária - na tentativa de desenvolver um projeto de extensão popular. Afrontas não só de outros acadêmicos, mas também de professores e técnicos. A grande questão não é o que é melhor ou é pior, é compreender que tudo faz parte de um sistema e que cada conhecimento se complementa, é apenas diferente. Para muitos, a verdadeira alegria da medicina ganha vida nas relações formadas com os pacientes. É difícil quantificar o problema, mas as ofensas sutis, pequenas tensões e hostilidades entre médicos (e também acadêmicos) somam um estresse mental significativo, nos quais os efeitos podem ser deletérios. O que tem “tom de brincadeira” é dividido por uma linha tênue de afrontas e humilhações. Nesse sentido, compreender que a diminuição ou depreciação dos colegas sobre a Liga de Educação em Saúde e também sobre a Estratégia Saúde da Família (aproveito o ensejo para falar também deste tema) ou as escolhas de cada um são formas desrespeitosas de lidar com os colegas, amigos e pessoas.  

É difícil você ouvir falar que o trabalho de um clínico é "sempre a mesma coisa" ou que um cirurgião "é médico de mentira" ou que você é “petista” (ou “comunista”) porque escolheu fazer ginecologia. Ninguém fala que você é burro ou menos capaz porque você escolheu pediatria. Ou ainda dificilmente alguém utiliza demagogias de que você não sabe escolher a sua própria especialidade ou que você deveria rever as suas escolhas. Por que então falar isso dos médicos de família? Por que falar isso de acadêmicos que criam e participam de uma Liga de Educação em Saúde? Se você falar que quer ser médico de família durante a sua formação certamente você irá ouvir algumas perguntas como: "você sabe encaminhar?", se "você votou na Dilma?" se "você tem preguiça?", ou a afirmação "eu não vou te ensinar porque você quer ser médica de família". Às vezes nem perguntam, como escutei há umas duas semanas, “aí vem a médica do PSOL” - eu olhei para o médico residente que fez a brincadeira, pessoa que nunca havia trocado uma palavra comigo, nem me cumprimentado, eu não conhecia ele e pior nunca demonstrei minha opinião política nesse sentido. Além disso, eu não entendo o que isso muda na minha prática e habilidade médica. Existe, na conjuntura atual, uma certa dificuldade em distinguir opiniões e fatos políticos com a prática e escolhas dentro da medicina.

Por que acadêmicos que decidem desenvolver trabalhos na comunidade que são de difícil acesso com todas as peculiaridades possíveis e imagináveis são considerados "babacas", "drogados" ou "retardados"? Devo dizer que a vida na comunidade não é setorizada e organizada como ligas que lidam com problema setorizados (clínica, cirurgia, trauma e cia). É difícil ter cronograma quando a chuva destrói o telhado do local que você faz reunião, ou quando você lida com perdas, ou quando a comunidade não pode te receber por causa do tiroteio da noite anterior, ou ainda quando um grupo de artesãs precisa fazer uma grande encomenda e a reunião não poderá ser aquela semana. O que é difícil é ter que realizar reuniões e refazer cronogramas para discutir a denigração e a dificuldade de conduzir um projeto com a comunidade longitudinalmente dentro do curso de medicina. Ainda mais difícil é o especialista, clínico, cirurgião (e cia) perceber que, quando eles forem explicar sobre determinado remédio da tireoide, aquela pessoa da comunidade que teve a chance de participar de uma “Liga de Educação em Saúde” vai saber onde a tireoide fica o seu formato e para que serve. Ou quando for receitado um antidiabético aquela pessoa vai conhecer o mecanismo da diabetes e síntese do "açúcar". É raro o especialista, ou “acadêmico-especialista” (palavra que tenta definir a superespecialização no curso de medicina) perceber a diferença de um paciente que conhece a localização do fígado, sua função e inclusive suas enzimas. Ou mudar a alimentação de uma família porque finalmente eles entenderam o que é “diminuir o sal”.  E ainda, analisando mais profundamente, talvez o que quase ninguém discuta (ainda mais difícil) é a importância e emponderamento da comunidade que conhece seus direitos em saúde. 

Geralmente não se percebem essas nuances que uma Liga de Educação em Saúde é capaz de promover. Ou um Médico de Família ou mesmo um profissional bem formado e com habilidades de competência comunicativa intercultural (outro “carro chefe” da Liga de Educação em Saúde). Não importa a área que um acadêmico exposto a esses conhecimentos irá trabalhar, as marcas de uma comunicação adequada baseada em uma relação de troca, e não de imposição já demonstram as diferenças entre: paternalismo médico e emponderamento em saúde.

Então, você vivencia as versões do mesmo discurso, "o médico de 'postinho' é ruim" (ou é comunista, incapaz, a escória da medicina, entre outros) remendadas pela fala “mas eu sei que você vai ser boa”. Por acaso fala-se isso dessa forma de outras especialidades? Eu nunca escutei "endocrinologistas são ruins, não vale a pena fazer essa especialização" ou "não encaminhe de volta para o cardiologista que ele não sabe lidar com a situação". Ou diariamente tem alguém que irá falar algo do tipo:  “talvez você pode ser boa na medicina de família, mas sabe, qualquer um está indo trabalhar na atenção primária, então é difícil”. Eu gostaria que um médico especialista que fala isso fosse em um congresso de Medicina de Família e visse a legião de “qualquer uns” trabalhando pelo cuidado integral do paciente. Certamente quem estiver utilizando os óculos do viés hospitalocêntrico (óculos ensinado/colocado durante a formação médica) vai comentar: “mas os cardiologistas são mais bem preparados, os médicos de ‘postinho’ não são”. Será? Não são dois ou até três anos de especialidade também? As habilidades são diferentes, isso eu concordo. Aliás, devemos cuidar com algumas generalizações (que não mudam a depreciação de médicos que decidem atender na atenção primária), mas os “médicos de postinhos” não são iguais a médicos que optaram por realizar a residência em medicina de família. Explico melhor: no universo dos médicos que trabalham em unidades básicas existem médicos de família, médicos de outras especialidades e médicos sem especialidade. Mas ninguém fala dos médicos de "hospitalzinho" que também congregam todas essas características de formação. Ainda, é difícil você ver, mesmo quando um médico de família recebe uma péssima nota de alta hospitalar, alguém falar "ah esses médicos de pronto socorrozinho que não fazem seu trabalho direito", "esses médicos de hospitalizinho que não sabem encaminhar" ou "esses médicos que nem fazem medicina que fingem que trabalham". 

Isso não acontece só com a especialidade de medicina de família (apesar do contraste ser maior)*.  Os médicos que trabalham com o paciente zombam dos médicos patologistas e radiologistas que “não habitam o mundo real”. E clínicos ridicularizam por certa doença ser mais de um ou de outro (por exemplo: essa doença é mais do cardiologista, ou do nefrologista, ou “não o porquê que o pneumologista quer modificar a conduta”), nunca está certo o local do qual eles pertencem (claro doenças são multifatoriais e multifacetadas). Cirurgiões discutem o papel do clínico e criticam as condutas tomadas (e vice-versa). R2s (residentes do segundo ano) “brincam” com R1s (residentes do primeiro ano) em geral humilhando ao invés de promover um ambiente de construção do conhecimento.  E as brigas seguem entre si em busca de hierarquias arraigadas ao sistema. Por fim, os médicos de família estão cansados da falta de condescendência de especialistas. 

Pesquisas não cansam de demonstrar o aumento dos níveis de ansiedade, depressão e burnout entre os médicos. Em geral as desculpas giram em torno de longas jornadas de trabalho, pacientes exigentes e burocracia inesgotável, mas qual é o papel que desempenham os colegas prejudicando um ao outro (mesmo sem querer)? Eu não vou denegrir a imagem de nenhum colega com este texto, quero abrir a discussão madura sobre medicina de família e projetos de extensão popular (a Liga de Educação em Saúde), não quero fazer um apelo, quero conscientizar os abusadores para prestarem atenção, porque violência mesmo verbal, discriminatória ou emocional é prejudicial para todos (e, diga-se também, pode se enquadrar como crime).

Um dos caminhos para isso, pasmem, é a educação médica (educação em saúde) onde se deveria não apenas resolver o conflito, mas evitá-lo. Ao invés de só termos (ainda que poucas) instruções de como se comunicar bem com o paciente, porque não aprendermos como ser agradável com os colegas (aliás desdobro isso para os colegas de outras profissões)? Por fim, a Liga de Educação em Saúde tem trabalhado para garantir uma educação de qualidade no curso de medicina, independente da especialidade (medicina de família ou outras). Educação não apenas técnica, mas, também, humana, para tentar assegurar que a universidade não deforme acadêmicos durante o curso com ideias depreciativas sobre projetos que trabalham na comunidade.  Nesse aspecto, descubro que ainda tem muito o que fazer.

Aliás, feliz dia do médico e que esta seja uma reflexão para todos que escolheram essa profissão.

Documentário sobre a Liga de Educação em Saúde
Voam abraços,

Mayara Floss

* Eu não sou a primeira pessoa a escrever sobre isso, veja o texto de Ranjana Srivastava “How doctors treat doctors may be medicine's secretshame” que inspirou o este parágrafo.

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