AMOROSIDADE

Ernande Valentin do Prado

Difícil deixar prá lá.
Tem coisa que não pode ser evitada...

Silvana foi dormir logo depois de servir o jantar para o marido e os três filhos. Eles ficaram comendo, ela foi para cama, calada. Estava chateada com o marido, queria que ele soubesse. Ficou magoada com sua atitude bruta, sem sentido.
Quando o marido entrou no quarto, Silvana fingiu estar dormindo. Ainda não queria falar. Um nó na garganta não deixava. Se insistisse, era capaz de chorar. Não ia derramar lágrima nenhuma, prometeu a si mesma. 
- Não precisava fazer aquilo, pensou Silvana!
Quando voltou do pasto, Nenzinho avistou de longe uma enorme melancia verdinha no giral da cozinha. Ela brilhava no restinho do sol da tarde. Os meninos correram em direção ao pai, queriam brincar com o cavalo, antes de tirar a sela, como faziam todo dia. Até Isabel, de pouco mais de três anos, correu pelo quintal, um pouco atrasada.
- Papai, papai, papai...
Silvana tinha um sorriso enorme nos lábios, como há tempos Nenzinho não via. Aquela briga com o sogro estava acabando com a felicidade da mulher. Privando os filhos de conviver com a avó, os tios, as tias, os primos. O convívio familiar era muito importante, ainda mais vivendo naquele fim de mundo. Mas o que ele podia fazer? O velho era mais teimoso que uma mula empacada no brejo.
Sentiu um ódio ainda maior pelo sogro, ao pensar nisso.
- Viu o que o pai mandou, acho que ele tá querendo fazer as paz...
Antes de Silvana terminar o que ia dizer, Nezinho pegou a melancia e jogou aos porcos. 
Não disse nada. Pegou a toalha, um sabonete e foi se banhar no córrego atrás da casa. Chamou as crianças para ir juntas, como fazia todos os dias.
O sorriso nos lábios de Silvana murchou. Sentiu as pernas bambear diante da atitude orgulhosa do marido. Quis chorar, saber de Deus o porquê. 
- Por que meu Deus, por quê?
Nem lembrava mais quando, porque essa briga tinha começado. Só queria que os homens fizessem as pazes, poder visitar sua mãe, ver seus irmãos e irmãs. Levar os filhos para brincar com os primos.
Mas os dois eram mais teimosos que mulas velhas empacadas.
Por bastante tempo, aquela noite, Silvana ouviu as crianças fazendo barulho na sala. Pensou em levantar, conversar com elas, já que não conseguia dormir, agoniada, com dor no peito, por causa daquele ódio entre o pai e o marido. Ficou desanimada, sem forças, só queria dormir, mas as horas iam passando e ela acordada, com o pensamento longe. Até que não ouviu mais nada. 
Quando acordou, bem cedinho, junto com o galo e o sol, viu que o marido não estava mais na cama. Na cozinha, abriu a janela e sentiu o orvalho da manhã no rosto. Estava melhor, apesar da noite mal dormida. Olhou para os filhos, todos de cabelos crespinhos, iguais ao  do pai.
- Nenhum puxou a mim, pensou olhando as crianças uma por cima das outras, na mesma cama.
Mesmo ainda magoada com a atitude do marido, Lembrou-se porque havia casado com ele. Com a brisa que entrava pela janela, sentiu-se invadida por uma imensa ternura, pelo marido, pelos filhos, pela família que construiu.
- Eu sou feliz, eu sou feliz, repetiu para si mesma, talvez tentando se convencer.
Saindo pela porta da cozinha viu Nenzinho sem camisa, de costas, debruçado sob o cercado dos porcos.
- Deve ter se arrependido, pensou Silvana.
Caminhou em sua direção, pensando em abraçá-lo.
O marido sentiu a presença da mulher e virou-se, foi ao seu encontro, tentando pôr-se em sua frente, de modo que não pudesse ver dentro do chiqueiro. Mas não conseguiu.
- O que aconteceu?
Nenzinho não teve coragem de falar, nem era preciso.
- Ele ia matar os próprios netos, ele ia matar os próprios netos, ele ia matar os próprios netos! Repetia descontroladamente Silvana, chorando, gritando, jogando-se na terra, levantando, puxando os próprios cabelos, rasgando a roupa. A cor deixou seu rosto, ficou sem expressão, parecia um fantasma, olhos vidrados. 
Nenzinho compadeceu-se do desespero da mulher. Com muita calma, paciência, tomou-a nos braços com força, de modo que se sentisse segura, amparada, amada, cuidada, como prometeu que faria, diante do padre, quando se casaram em um fim de tarde de primavera.  Aos poucos a cor voltou à sua face. Ela recobrou a calma, limpou o rosto, levantou-se com pernas firmes.
- Passou! Disse ao marido, com voz firme. Até parecia outra pessoa. Tentou um sorriso.
Desvencilhou-se dos braços de Nezinho. Entrou na casa, em minutos voltou trazendo a carabina do marido. Estendeu-lhe a arma e disse:
- Vá!


[Ernande Valentin do Prado publica na Rua Balsa das 10 às 6tas-feiras]

Revisão: Jailson Almeida.

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