FRAGMENTOS DE DEPOIS DO TEMPORAL


Maria Amélia Mano

Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

Alphonsus de Guimaraens

                Por dez dias, o céu chorou em temporal. Mas eu dancei na chuva e nas frestas de sol. Frevo e festa de criança. Fragmentos. Marionete de fios. Boneca palhacinha que deve atravessar a corda. A boneca olha a corda e tem medo. Vacila. O bonequeiro oferece uma sombrinha mágica. Com ela se atravessa para o outro lado, fácil. A corda, diz o bonequeiro, é o destino. A sombrinha, penso, é coragem. A palhacinha, com seus fios, com a sombrinha mágica, atravessa o destino e se sente feliz. Aplausos! Depois, penso: a sombrinha pode ser só o sonho.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

                Um homem canta ao longe, de olhos fechados, lembrando. É canção de montanha mineira. Cachoeira. Água fria. É canção de cerrado de céu limpo. É canção de deserto e caravana. É beira de rio seco onde nasci. Uma canção para um tempo. Uma canção para um lugar. Canção para Orixás. Canção de sul. Mãos dadas. Gaita e jazz. Mantra. Noite. Poesia musicada. Cerveja forte. Beijo. É cheia. Pampa. Fronteiras. Tempestade de raio e vento que levanta telhados. Abraço. É lugar onde quero chegar. Ficar.

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

                Os cabelos acinzentando como que sobreviventes de incêndio. Chama de arder. Chama de chamar. Pirotecnia. Mágico cinza, branco, como penas, penugens, voando. E a cada tempo, se modificam. São outras penas. São outras asas. Tempo que corre, queima e chama. Pula corda. Dança na chuva que chega depois do estio. Ainda quero correr descalça na calçada. É mãe que chega. Ainda escuto sua voz doce me pedir para calçar os chinelos. Mãe é mãe mesmo com essa filha e esses fios que saem prateados de tempo, asa e luz.

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

                Umas vezes, tive vontade de ser mãe. Não de gestar ou parir. Mas de amamentar. Colocar no colo. Sentir que sou alimento. Como bicho que sou, como seio que carrego para fazer viva a cria. E me ver criança, de novo. Lembrar pequenices, miudezas, caixas de botões, linhas de bordar, o canto no jardim, ramos, mudas, suculentas, flores miúdas, simples enfeites de chão úmido de estrada, depois do temporal. Folhas secas e as diversas asas de borboletas que bem que podiam servir de estampa para qualquer vestido de festa...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

                Espuma de mar. A espuminha amarga da cerveja que meu pai me dava por baixo da mesa, escondido da mãe que censurava: "irresponsabilidade!" Mas, em hora de retorno distante, em tarde de primavera, de novo, o sabor me entrou pelo coração e me fez leve e "irresponsável", sim. Proibida e escondida. Sorri. Dividi segredo e crime. Agora, fica essa vontade boa de ir para casa com a canção e os chinelos de rua, de lua. Agora, fica essa vontade boa de ir para o mundo vestida de asa de borboleta, com a sombrinha mágica, feito a da marionete palhacinha.

Comentários

As mais vistas