INÉDITO (VIÁVEL?)

Ernande Valentin do Prado

Para PKD, pela inspiração!

- Você é o careca?
- Você veio resolver a parada?
- Vim...
- Tem que ser agora?
- (...) Tem alguma coisa pra fazer antes?
- Tá vendo o parque?
- Tô...
- Queria ir lá antes... pode ser?
- (...) Por que te chamam de careca, com um cabelão desses?
- Ironia.
- E você sabe o que é ironia?
- Eu estudei! Acha que só porque moro na rua, sou burro?
- (...) Como se meteu nessa merda?
- Porque é uma merda, essa vida! E você?
- (...) Vamos ao parque, então... mas você sabe, depois não vou aliviar seu lado.
- Sei.
- Você nunca foi a um parque?
- Claro que já! Sempre vô. Nunca fui pra brincar, só para trabalhar. Só queria experimentar o carrinho de bate-bate. Só uma vez.
-  Vâmbora...
- Você podia fingir que era meu pai?
- Pô.. tu é folgadaço... espera que vou pegar os ingressos... .
- Comprou quantos?
- bastante...
- Vou lavar a égua...
- (...) Você jantou?
- Quando?
- Hoje?
- Nada!
- Quer comer, depois que gastar todos os ingressos?
- Não é abusar da sorte?
- Também já tive sua idade... mas não vá me sacanear, falô? Já sabe qual o final disso...
- Posso chupar um sorvete?
- Pode.
- (...) Vamos indo... quer comer o que?
- Sei lá! Qualquer coisa.
- Pode escolher.
- Sempre tive vontade comer naquele restaurante, mas nunca me deixaram entrar.
- Então vamos lá, hoje.
- O garçom não vai me deixar entrar.
- Pô, tá me estranhando, não confia em mim, moleque?
- Nem acredito!
- Pode pedir o que quiser...
- Esse moleque é sangue ruim!
- Te perguntei alguma coisa? Serve o que ele pedir, esse é seu trabalho.
- Quero um pratão de arroz com bife e bata frita, bastante batata frita...
- (...) Não precisa comer assim, com tanta pressa... tá com muita fome?
- Huhum. Não quero abusar da sorte. Você tem até que horas?
- Pode comer com calma... Quer uma coca?
- Huhum.
- Como foi dar uma dessas?
- Não sabia que ela era filha do Gordo...
- E precisava furar a menina, não dava só pra levar o celular?
- Ela me bateu! Começaram a rir de mim. Fiquei com vergonha, com medo...
- Foda... e agora?
- Agora, fudeu! Faz o que tem que fazer. Eu tô mesmo cansado (...)
- Quantos anos você tem?
- 12.
- E já tá cansado?
- Na rua, cada ano vale por 10... já sou mais velho que você.
- E sua família...
- O que tem?
- (...) Alguém... (?)
- Pode me fazer um favor?
- Mais um?
- O último. Não deixa minha mãe ficar sabendo (...)
- (...) Se te deixasse ir, o que faria?
- Por que faria isso?
- Acho que não nasci pra essa vida. Tô com a mão tremendo (...)
- O caçador não deveria conversar com a caça (...)
- Você é foda, moleque... vai filosofar numa hora dessas.
- Se você me deixar ir (...) vai se fuder. E vou pra onde, fazer o que?
- você é foda (...)
- Hoje foi o melhor dia da minha vida! Melhor parar enquanto estou ganhando.
- Minha mão não para de tremer.
- A minha também não...

[Ernande Valentin do Prado publica na Rua Balsa das 10
às 6tas-feiras]

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