A vila que nos fez aves

(Desenho Anna Cunha)


Eu andei com ela
As mãos sempre em busca de mãos 
As despedidas nunca aceitas
O instante da partida como um desgarro
A certeza colorida da amada eternidade instante 

Eu andei trás dela
Gravando cores 
Feições concentradas
Um passo curto que fica no peito
Um azul de boca celeste 

Sou instantâneo para ela
Ó abóbada de estrelas por cima da tormenta!

Eu me fiz ela - sombra e luz
Carne e lábios etéreos 
Dedos em fome de suavidade e pele
Sentidos em som de respiro
Em calda suave de chocolate 
Em sabor de café coado da Raimunda 

Eu andei na frente, embaixo no céu dela
E andei feliz na Vila
Sem me importar com os arredores 
Absorto de mim mesmo nela
Ciente e mecânico de auras e dizeres
Cochichados na penumbra de tormentas
No apertar do corpo com abraço interminável 
Desejando a cada passagem de tempo
Que tempo de desgarro nunca chegue 
Que assim seja meu tempo dentro de mim nela
Até que o passo acompasado
Me prenda aos voos 
Aos vestígios de anjo dormido
Ao cabelo de prata pura peruana
Ao sabor de mar e limão da boca
Ao aroma de cacto e musgo escondidos
Ao olho feito de espantos e maravilhas 
Ao fio que costura meus amores
Um poema feito eu
Que me descubro criança secular e sagrada 
Quando me sou dela parelha 
Parceira 

Isto tudo e mais me ensinaram as ladeiras da Vila Madalena em 3 dias

Sagrado total 
Escada total 
Consciência inteira da minha sorte
De amar e ser amado
Em relógio que teima em sonhar
E em criar ternuras e indiadas


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