LEMBRANÇAS DA ILHA

Gregório Antonio Fernandes de Andrade

Não sou negão
O preso de um modo geral, no decorrer do cumprimento da sentença, sofre muitas transferências de presídios. Costumávamos dizer que o preso é mercadoria do Estado. Comigo não foi diferente, passei por mais de 15 carceragens no decorrer de minha caminhada. 
Em todas estas as transferências, há um procedimento denominado “admissão”, que é realizado pela equipe de “recepção” do presídio que recebe o preso para o “cadastro”. Nele é Concretizada uma rápida entrevista, onde dentre outras coisas, é perguntado nome completo, idade, estado civil, endereço, delito pelo qual foi condenado, se é preso de seguro[i], se tem doenças. Também é perguntado como o preso auto denomina-se em relação a cor de sua pele.
Esta entrevista deveria ocorrer em local privado, onde o preso pudesse explanar as informações sem que outros pudessem tomar conhecimento, contudo, há uma diferença abissal entre o que deveria e o que realmente ocorre por detrás dos altos muros das prisões deste nosso Brasil.
Fato é que em uma destas muitas transferências, chamou-me a atenção o ocorrido com um companheiro que chamávamos de “Bola Sete”. Bola Sete era um irmão de caminhada que deixava a cadeia dos irmãos mais leve[ii], tamanho o seu senso de humor e gaiatice. 
Gilmar (Nome do Bola Sete) consistia em um homem de quase dois metros de altura, pesava uns 150 quilos, e tinha um coração de igual envergadura ao seu tamanho. Bola sete era muito doce, solidário, desprendido materialmente, para ter uma ideia, ele dividia a marmita com os companheiros, o que era dele, era dos outros. É obvio que para fazer jus ao nome o apelido tinha que fazer menção a sua cor de pele. Bola Sete era preto, bem preto.
Voltado à questão da transferência, tomei um “bonde[iii]” juntamente com meu amigo gaiato Bola Sete, quando chegamos à carceragem de destino, nos colocaram algemados no pátio, juntamente com todos os outros transferidos, ao todo x pessoas. Debaixo do sol de meio dia, sem almoço, sem água e sem usar o Boi (banheiro). Por volta das 16 horas, começaram a fazer a “admissão”, contudo, pelo avançado da hora, e pelos guardas estarem em vias de trocar o plantão, realizaram “entrevista” coletiva, assim, no meio de todo mundo. Chamavam pelo número de infopen (o meu, jamais esqueci: o preso para o Estado é apenas um numero). Falávamos os nomes e íamos respondendo o que nos era perguntado, estado civil, idade, endereço, auto denominação de cor de pele...
Bola Sete foi o primeiro a responder: estava em minha frente, respondi tudo dentro das conformidades, com presteza e agilidade, mas quando chegou ao questionamento da cor de pele ele me solta: 
- Sou Pardo!
Foi uma risada geral, já que como falei, Bola Sete era o cara mais preto que conheci na vida. Fiquei intrigado com a resposta de meu amigo e, assim que pude, questionei qual o motivo daquela resposta:
- Qualé desta de responder que é pardo?
- Qualé nada doido, já tô preso, fudido, qualquer coisa nos esculacham, e você ainda quer que eu fale que sou negão? Sai fora mané!
Dei umas boas gargalhadas e seguimos para a nossa nova morada.
Hoje, refletindo sobre este episódio e sendo conhecedor da seletividade penal, da função do Direito Penal, fico me perguntado: que País é este em que um ser humano tem vergonha de sua cor. Mais que isto, acredito que, de certa forma, o meu irmão tinha razão. 
Tudo é mais difícil para o preto neste Brasil, sobretudo em um ambiente em que, na própria concepção, foi criado para separar e segregar aqueles que a sociedade entende serem pessoas de segunda classe.
Deve ser por isto que as “estatísticas oficiais” dão conta do número incrivelmente grande de “pardos” no sistema prisional, por pessoas com o mesmo entendimento e percepção do Gilmar, o Bola Sete...


Gregório Antonio Fernandes de Andrade, (Greg Andrade), Advogado, sobrevivente do sistema carcerário brasileiro, Ativista e militante em Direitos Humanos no Coletivo PESO – Periferia Soberana.

[Greg Andrada foi convidado por Ernande: convidado publica na Rua Balsa das 10 aos sábados e domingos.]



[i] Se achar interessante, escreva aqui a definição de preso de seguro. Preso de seguro é quem foi sentenciado por crimes contra a liberdade sexual, ou acusados de serem delatores.
[ii] Este presídio, para onde fui transferido, tem características de ser para presos em regime semiaberto, que podem sair para trabalhar extra muros
[iii]Bonde é o nome dado as transferências, mudanças de cadeia. 

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