MAS EU NUNCA SEI PRA ONDE VAMOS


Maria Amélia Mano


Perante um obstáculo, a linha mais curta entre dois pontos pode ser a curva.
Bertold Brecht


                Nada é realmente nosso, nem o tempo que pensamos ser, nem o passo que pensamos dar. Talvez o próximo passo, o que damos, o que economizamos e permanecemos. Sim, esse pequeno grande movimento que nos põe para trás, para frente ou nos deixa imóveis. Verdade que em tempos de areias movediças, estar seguro e não sair do lugar parece coerente, cuidadoso.

                Mas vamos que, um dia, na imobilidade inquieta e inconformada dos nossos medos, a gente arrisca e olha de cima. Enxergar, talvez, um trapézio, um trampolim, uma porteira entreaberta, um degrau para cima, uma roleta, uma cortina semiaberta para algum palco. Suspense. Saberemos avançar? Sair do comum, confortável e buscar a próxima estação, o pulo, o salto, o passo além, o mergulho, a dança...

                Pode ser perigoso. Pode ser mais triste. Pode até doer mais. Mas, a seu tempo, tudo volta a ser mais inteiro. O que era pedaço. O que era metade. O que era lágrima. O que era solidão e saudade. O que era. O que erra. O que, errante, ergue as mãos ao céu e pede inspiração, paz e um tanto mais de coragem. Coragem que é filha fujona de cabelos longos e despenteados em tempestades de poucos retornos.

                Sim. Sabemos que nem sempre é possível voltar. Mas é preciso, ao menos e, não menos, ser e seguir fiel ao que é profundo, ao que vale, ao que é essencial, ao que merece mais olhar e toque. Respeito. Abraço. Fiel ao que está aí, insone e inquieto, buscando vida bonita que nem a hera que estende os ramos e se desenvolve para cima, cresce e envolve o muro, a cerca, a grade e enfeita de verde nosso olhar.      
  
                Assim, arrumando a casa, fazendo as lições e missões de projetos e sonhos, experimento a solidão boa que me deixa tranquila com a humanidade do engano. Meu ponto fraco. Meu ponto forte. Meu ponto de orvalho. Sinto orgulho por tantos atalhos que me fizeram triste, em algum momento. Mas que me arrepiaram o olhar e me fizeram criar mundo de atenção, de intensidade e histórias para contar em bonequinho de trapos.

                Histórias navegantes nesta Balsa que, um dia, já foi barquinho de papel correndo na água solta da rua. Menina, mulher. Grandes e pequenas navegações. Muitas voltas, muitas curvas. Muitas palavras juntas e eu juntando as letras coloridas e os brinquedos do chão. Sem mãos e braços para tanta coisa a segurar e dizer. Quem sabe crescer seja isso de saber não se espalhar tanto! Que é trabalho juntar. Mas vale pela alegria que deu, pela alegria que dá...


Foto: Alceu, cachorrinho de trapo de malha lilás feito por mim, para, quem sabe, contar histórias...


Comentários

As mais vistas