Medicina em linha reta




 "Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?" - Fernando Pessoa


Nunca conheci quem tivesse errado.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes incapaz, tantas vezes incompleta
Eu tantas vezes irrespondivelmente sem conhecimento
Indesculpavelmente ruim,
Eu, que tantas vezes não consegui colher uma gasometria arterial,
Eu, que tantas vezes não fui capaz de descobrir a exata queixa principal,
Que tenho errado, publicamente, o remédio exato da insuficiência cardíaca,
Que tenho sido grotesca, sem habilidade, submissa e arrogante,
Que tenho passado por piadas e calada,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridícula ainda;
Eu, que tenho sido cômica;
Eu, que não consegui o acesso venoso central,
Eu, que me atrapalhei com os valores de exame,
Eu, que tive cansaço e dormi,
Eu, que não consigo, irremediavelmente, malhar ou fazer uma atividade física,
Eu, que sinto dor nas pernas no meio de uma cirurgia de oito horas,
Eu, que não fiz nenhum ato heróico,
Eu, que, quando a hora de entubar surgiu, decidi esperar
Fora da possibilidade das minhas mão enluvadas,
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca errou uma gasometria arterial,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Já salvaram inúmeras vidas. Todas anunciadas nas redes sociais.
Humanos, médicos, e perfeitos.

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas um erro;
Que contasse, não uma acerto, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi errado?
Ó príncipes, meus colegas, professores, médicos,

Arre, estou farta de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errônea nesta terra?

Poderão as gargantas não terem sido entubadas,
Pode a anatomia ser diferente  - mas errado nunca!
E eu, que tenho sido falha sem ter errado,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho errado, literalmente errado,
Errado no sentido mesquinho e infame da humanidade.

Voam abraços,
Mayara Floss

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