TAMBORES DE MARIANA


Maria Amélia Mano

Para Thiago e Emanuelly

Tambores

Peço atenção agora meus senhores
Pros tambores os tambores
Pois o que bate agora meus senhores
são os tambores os tambores
Mais forte que o açoite dos feitores
São tambores os tambores
Seu toque é o toque de espinhos e flores
São tambores os tambores
Cura a dor de amor com mais amores
São os tambores os tambores
Soam onde eu for onde tu fores
São os tambores os tambores
Brasa do mais quente dos calores
São os tambores os tambores
Som dos viveres tinta das cores incolores
São os tambores os tambores

Chico César


                Ouro! Grito dos paulistas, bandeirantes, no século XVII, nas Minas Gerais. Homens brancos buscando fortuna. Índios, colonos, negros cativos. O trabalho nas minas foi considerado o mais penoso, cruel e pesado desempenhado pelos escravos no Brasil. Risco de morrer pela desnutrição, pelas doenças, pelo tempo na água, dentro das minas, nas cavernas. Risco de morrer por soterramento, que era o mais comum.

                Ergueram igrejas entre buscas de fortunas, violações e violências da escravidão. Alforrias pagas com pepitas de ouro. Formaram vilas e cidades. Séculos se vão. Povoados calmos e rurais se formam na calma da exaustão das minas. Aparecem as águas limpas das cachoeiras. Doces caseiros, geléias de pimenta biquinho, feitas com limão e laranjas colhidas nos quintais das casas. Sabores e segredos de cozinha.

                Lama! Grito de filhos dos filhos de filhos de índios, brancos, colonos e negros, no século XXI, nas Minas Gerais. São 612 pessoas. Quase 70% de pardos e negros. O espírito dos antepassados açoitados e soterrados se ergue em vigília. Em assombro, perambulam entre lavouras, ruínas e tachos de doce enterrados na lama. Terra de tantas correntes. Onde estarão os novos quilombos? Onde soam os velhos tambores de resistência?




20 de Novembro - Dia da Consciência Negra - Dia de Zumbi dos Palmares.
https://www.youtube.com/watch?v=UXyrm83sLsw

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