SARAU DE DEZEMBRO NA ESTAÇÃO DA LUZ


Maria Amélia Mano

 
               Irresponsabilidades. Um ano termina. Termina um museu, em chamas. Museu de poesia. Museu de imagem. Ronaldo morre. Devo ter visto ele em meio às vozes de Drummond e Caymmi. Sinto falta dele que não conheci, não vi. O museu se reconstrói, prometem. Ele, não. Não era feito de tijolo e pedra. Era feito de família. Quem sabe, esperança. Esperança que penetra surdamente no reino das palavras. Mas, gritamos. Palavras vivas. Poemas, fragmentos pendurados em varais que voam. Balsa. Sarau. Reencontros. Desabafos. Angústias. Alívios. Somos nós.
               
                Heloísa briga com a mãe, Tânia. Heloísa e o irmão querem ir ao passeio do colégio no fim do ano. Confraternização de colegas e professores. São 25 reais cada um. São 50 reais, no total. É isso ou o gás, pensa Tânia. Heloísa desafia os pais, vira “respondona”. Tânia bate em Heloísa e se arrepende, sente culpa. Mas é coisa demais! Ela e o marido sem emprego. No meio do choro, Tânia tranquiliza a filha. Diz que o dinheiro do passeio está reservado. Decide. Agora, é arranjar dinheiro para o gás.

                Fernanda já teve a última filha mais tarde e olha para a menina, Vitória, com esperança. Recebe ajuda do governo, Bolsa Família, 150 reais. Tem as pernas cheias de varizes. Aguarda cirurgião vascular por mais de seis meses.  Tornozelos inchados. Dificuldade para caminhar. Faxinas feitas com dificuldade. E pergunto do dinheiro do Bolsa família. Fernanda olha para Vitória e me olha, me explica: “é para ela”. Fernanda guarda, todos os meses, o dinheiro para a filha: “quero ver ela estudar e se formar”.

                Helena espera pelo auxílio doença em função da depressão e da dependência química. Instituição entra em greve e a perícia fica adiada para fevereiro. Ex marido não ajuda. Vem chegando o natal. Filho de 10 anos cheio de sonhos. Ela perdida em falta de sonhos. Recai e resolve. Crack e prostituição em dois dias de loucura em que mal se lembra. De uma noite para outra, consegue 360 reais. Sente que é nada na vida. Fez pelo filho. Tem notícia boa: assistente social conseguiu cesta básica. O natal vai ser bom...

                É o gás, é a perna inchada, é uma noite de humilhações. É o sacrifício para dar o passeio aos filhos, é o sonho de ver a filha formada, é a ideia de fazer um natal bonito para o filho, uma ceia, um presente. Um ano começa. Quem sabe, um dia, no museu novo, em um ano novo e justo, todos podem entrar e ser poesia de sacrifícios e esperança. Esperança que penetra surdamente no reino das palavras. Mas gritamos. Palavras vivas. Poemas, fragmentos pendurados em varais que voam. Balsa. Sarau. Reencontros. Desabafos. Angústias. Alívios. Somos nós.


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