A menina e o mundo (virtual)


Estava ali, quase parada, exceto pelo dedo que rolava a barra de rolagem do computador olhando para os e-mails. Um click aqui, outro ali, o spam comprando ela, ela comprando o spam. Sem mais, nem menos, sem aviso prévio, sem anúncio da Matrix, sem comercial, propaganda, série ou torrente ela desapareceu. Sumiu, desapareceu, escafedeu-se.

A única coisa audível era a respiração ofegante e o pensamento rápido “o que está acontecendo?”.
Mariana começou a correr pela sua caixa de e-mails. Encontrava uma parede de bits nas laterais. Correu até a sua caixa de entrada escalou os botões de excluir, passou pela sua lista. Escadarias invisíveis, lixeira, lixo eletrônico, até que caiu no fundo da página nos “direitos autorais”, “termos”, “privacidade e cookies”. Olhava para o fundo via o branco e olhava para frente e via o vazio gigante da sua escrivaninha e janela. Decidiu escalar para trocar de aba, caiu no Facebook, rolou as visualizações, pulou os anúncios, até que parou na sua última atualização, uma foto do Instagram com um sorriso dela, colocou suas mãos naquele monte de pixels, tentou apertar, mas o tecido computacional era um elástico e tudo voltava para o mesmo lugar.

Correu pela página, nas mensagens, não tinha nem teclado para falar. A caixa de mensagens brilhava.
Carolina: “Ana, você ainda está aí?”

Estou. Dizia, pensava, falava, mas não teclava. Decidiu ir para a próxima página, quem sabe clicar em sair. Viu o sofá que queria comprar, do lado de dentro descobria que era só uma almofada computacional, tentou sentar-se e começou a escorregar em um monte de código binários. Estava escorregando até o fundo da página, passando pelo botão “compre em um click”. Olhava para fora, o dia da janela do quarto.

Estava começando a passar a dose de desespero quando um som ensurdecedor que a fez tremer começou. Chamada do Skype. Queria clicar no botão “atender” pulava em cima e não conseguia, pulava de novo. Conectar-se nunca foi tão difícil. Até que viu lá em cima, no canto esquerdo o cursor, a liberdade talvez do click, escalou pela barra de rolagem e deu um pulo entre os favoritos para conseguir alcançar o cursor, deu um salto, nova adrenalina, e para fugir do toque, e pendurou-se no cursor que primeiro ficou parado. E depois foi caindo até o fundo da página – no fundo novamente. Não tinha ninguém para mexer o mouse contra o peso do tempo. Foi arrastando pixel por pixel até o botão, mas a chamada já havia terminado, Carolina já havia desistido de Maria. Mas ela sabia que era questão de tempo e deixou o cursor no lugar certo, o ponto certo e ficou esperando.
Olhava o sol do lado de fora da janela do seu quarto. O tempo passando e ela ali, dentro do computador, aguardando o Skype. Liga Carol! Liga! Sem mais nem menos veio a chamada, o som ensurdecedor. Clica! Clica! Agora, clica! O botão funcionou a tela do Skype abriu e apareceu a imagem da sua amiga e o vazio do seu quarto. Ela dizia “Mariana, cadê você?”, Mariana gritava enquanto passava com seus braços pixelizados “Estou aqui!”, “aqui bem aqui”, mas a câmera só captava uma imagem vazia. Até que sua amiga impaciente disse: “Não entendi Mariana, vou desligar”. Isso doía nos ouvidos de dados de Mariana, volume muito alto pensou. No “x” talvez a saída, a saída do computador, a fuga. Tentou apertar o “x” o Skype fechou, mas a saída não apareceu, o portal não ressurgiu, nada, o aplicativo só fechou. 

Sentou na barra de inicialização rápida para chorar, perto da data. Os minutos passavam e faziam cócegas nas suas pernas. Chorou tanto que dormiu com os olhos vermelhos e cansados.
Sonhou com a janela, com o mundo do lado de fora, com ela correndo, ela caindo.

Acordou com a mensagem “nível baixo de energia, conecte-se a fonte de energia”. Pensou “e agora”, correu pegar o cursor para clicar em “modo econômico” e ganhar mais “tempo”. Agora era questão de tempo até a energia acabar, até ela acabar. “Será que me encontrariam desaparecida no computador?” Decidiu que iria fechar todos os programas para economizar bateria. Fechou o meio episódio de série que estava assistindo, o navegador de internet – “tem certeza que quer fechar todas as abas”, o fatídico jogo de paciência, o arquivo de word – e salvou todas as alterações. Sentou-se na área de trabalho, não tenha nenhuma grande reflexão. Apenas uma vontade de não ser excluída da lixeira, desaparecer, ser um dado morto. Ficou olhando para o teto da sua área de trabalho abarroatada.

Estava vazia, até que a tela começou a escurecer, “seria o fim?”. A vida virou um túnel, mas daí ela só parou dentro de uma bolha da proteção de tela. Não conseguia estourar a bolha, não conseguia sair, lutou para deixar de ser bolha. Uma vida inteira que poderia ter sido e virou bolha. Só o cansaço poderia fazer você virar uma bolha. Tudo depressa demais.

Não sabe em que pensamento estava quando a mensagem estourou todas as bolhas: “Você só tem 7% de bateria conecte-se imediatamente a uma fonte de energia”. Ela pensou: “Logo vai terminar, será que volto para meu quarto? Será que só termino?”. Maria aproveitou a mensagem para sair do modo de proteção de tela e teve uma ideia simples: “deixar uma mensagem, um último grito”. Correu, uma carta, pelo menos um telegrama. “Quando encontrarem o computador entenderão”. Desligou o bluetooth e a internet para salvar tempo correu pela barra de inicialização, aplicativos, chegou até “acessibilidade” e no teclado virtual. Estava renovada para carregar o cursor.

“Apenas 5% de bateria” dizia a mensagem, nível crítico, sabia que o tempo era curto. Abriu uma nova nota autoadesiva e foi caminhando por entre os espaços do teclado virtual, procurando as teclas. O tempo era pouco, sabia que depois da mensagem dos 5% o computador desligava a qualquer momento. Às vezes se perdia no teclado QWERTY mas conseguiu escrever sem nenhuma citação famosa antecedendo uma publicação, sem botões de sentimentos do facebook ou hashtags do twitter. 

O que escrever?

Mariana escreveu:

Virei estrela amo voces. Ma__ ...

E acabou a bateria.

"Inspirado em O menino e o mundo"

*Ilustração: background http://d11sjosxu0rtpd.cloudfront.net/wp-content/uploads/2013/12/social_media_strategy.jpg e "menina" desenhado no  software Kleki. 

Voam abraços,
Mayara Floss

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