Olho duro dois (ou insônia) [Julio Alberto Wong Un]

Quinta-feira pôs carnaval
Uma luz suave inunda lentamente 
Um lugar perto do mar
O lugar não é meu
Não tenho mais lugar meu
Alguma vez pensei proliferante que meu apartamento era meu
Não penso mais
Nenhum objeto me conforta suficientemente 
Ser sem lugar. Ser sem propriedades. Isso angustia por vezes. Outras deixa leve. 

Amanhece e eu andei me remexendo a noite toda na ausência que é uma cama alheia. Como as dos hotéis. Ora eu que tanto viajo e amo viajar. Nunca me entrego às camas neutras dos hotéis.  

Entrego-me à insônia - musa suave. 

Nas noites solitárias o corpo sempre decide falar. Papo de barzinho mesmo. Conversa fora pela janela lateral. 
O quarto de dormir é uma ansiedade. Um peso. Um leito que é peito. Um peito galopante. Um pensamento enfileirado e lotado e engarrafado. Trancado. 

Eu sou uma tranqueira na vigília das noites nunca madrugadas. 

Sem lugar. Sem planos. Sem efetividade. Sem produção. Sem grandes construções. 

Qual é o seu verso? O meu é doce
O meu é silencioso 

E contemplo o amanhecer em Copacabana 
O mar que lava os dejetos de carnaval
O meu próprio corpo que limpa as comidas e seus efeitos secundários 
Bebados. Prostitutas. Travestis espancados. Amantes furtivos. Vômitos variados. É a luz dourada do amanhecer. E os desejos jogados como fantasias de cetim do Benito de Paula. 

À luz dos sóis eu me faço sombra. 

Ó capitão falava Robin aos estudantes
Ó elevado tempo em que o ciclo do dia se renova 
Ó falta dela, do intenso do tempo, da espera e a renovação da carícia 

Sol queima. Brisa conforta. Volta é ida. Calma é utopia. E por aí vai. 

Até a próxima insônia. Até o próximo protesto do corpo. 

Bom dia. Tentarei dormir. 








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