Sobre voltar [Julio Wong]


para Amélia, as graças.


Na minha infância devo ter escutado esta canção mexicana: Volver. Lembro muito os boleros e rancheras e baladas. Minha mãe cantarolava. Tocava muito no rádio. Volver. Muito popular nos bares de dor de cotovelo espalhados pela América inteira. Haja violências, haja comportamentos grotescos, haja esteatose ou cirrose, haja sofrimento em mesa de bar. Tudo ao redor da invenção perversa da propriedade privada sobre a pessoa supostamente amada. Só que não. Ser dono não é amar. Fazer com que o outro realize servilmente os nossos desejos e gostos não é. Nem que abra mão da própria pessoa mutável que todos somos. 

Não. Amor é... Dois bonequinhos dos anos 70 onde qualquer coisa era dita no nome do amor. 

Mas violência, maldade, opressão, asfixia e agressão de qualquer tipo não. Claro que não. 

Nos bares se choram mágoas de proprietários supostos de vidas supostamente estáticas e servis. Só que não. 

Mudamos. Nunca paramos. Talvez as pessoas que têm essa fome tremenda pelo novo pelo inesperado pela paisagem diferente ou pela experiência comovente ou que os indigna ou que os excita ou que reacende mais e mais a fome de algo mais novo tenham em parte razão. Em parte. 

Esta minha digressão (de bar) infelizmente não é mais de bar porque eu não sou mais de bar. Fato que, como tudo, tem suas vantagens contemplativas. Assim como aquietar a mente e a vida. Como minguar o desespero alegre de conhecer e viver o novo. 

Não sou menos por isso. Não sou medíocre nem cai na mesmice. Não sou um ser acorrentado a rotinas. Valorizo o instante e o enlentecer do tempo. Um segundo é uma eternidade. Uma eternidade se renova em um segundo. Aprendi recentemente e não abro mão.

Sabedoria é equilibro. E é ruptura de equilibro. É variabilidade. E é regularidade. Intuição e critério.

Aprendi nos longos beijos. Nas caminhadas de mãos dadas pelos mesmos lugares. Pequenos mundos. Pequenos rituais. Rotinas. Só que não. Nunca iguais. Sempre renovados. 

Volver virou até nome de filme. Um filme bacana. Que celebra o retorno que nunca é retorno. A volta que é ida. E valoriza o diferente. O diferente que a alguns choca. Mas que, ele próprio, pode ser transformado também em forma de exclusão e superioridade. Desespero por ser diferente. Construir identidades. Se ambíguas melhor ainda - se pensa. E a partir delas criarmos nossas próprias tribos. E a partir delas vivermos vida de comunidade. Demarcar. Desprezar implicitamente os que não são como nós. Grandes sonhos e lutas podem ser também opressões, controles, superfícies, mediocridades.

Voltar. Este texto vivo e rebelde devia ser sobre minha ida em poucas semanas ao meu país. 

Só que não. Volta não é volta. Retorno é nova invenção. É descoberta. Espanto. 

Ir ao meu país depois de 4 anos é chegar perplexo. Desconhecer quase tudo. Procurar amigos e parentes que estarão nas próprias rotinas. Alguns nem ligarão para o cara estranho que mora no Brasil e só dá notícias vez em quando. Outros talvez se comovam. Fiquem atentos ao milagre de se encontrar.

E não me sinto como na ranchera Volver. Nem como Vuelvo al Sur de Piazzola & Solanas. Nem como o voltar do Benedetti. Nem como a música do Inti Illimani, Vuelvo, que alguma vez cantei em público com os colegas músicos. 

Nem sei o que sinto. Quero não preparar nada. Como o reencontro com a amada que sempre é nascimento. Cada instante é mágico. Único. Nunca repetido. 

Voltar. Tornar. Regressar. 

Descobrir. Deixar que os dias nos ofereçam encontros profundos. 

Só sei que desta vez o coração e a alma viajam acompanhados, aconchegados por utopia compartilhada. Renascido em tantos sentidos. 

Não volto. Vou.

Desta vez, como somente serão uns 12 dias, haverá que jogar garrafas com mensagens ao mar confiando que alguém - do passado do presente ou do futuro -acabe aceitando o convite para breves encontros. 

A brevidade marca os retornos e as descobertas. 


inti-illimani, vuelvo



estrella morente, volver











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