Verde





Para a Rua da República.

Dois de fevereiro - manhãzinha.

A árvore tombada no rua predileta me para na caminhada e  diz que vai me confiar seu testamento. Ainda tem folha verde na ponta do galho solto. Restinho de vida. Sussurro. Suspiro. Ainda quer ser.

Ela me conta dos vultos que viu antes dos ventos e dos raios. Conta das mãos dadas e das solidões nas calçadas. Lembra das crianças juntando flores, dos cães marcando território e do sono sonhado dos moradores de rua.

Confessa ternura dos sorrisos saídos da livraria com pacotes de histórias para contar. Estremece ao lembrar do cheiro de café e broa de milho,  torta de banana e suco de laranja. Cafeterias e padarias. Sorri ao falar dos bêbados das manhãs de sábado e dos roubos das mãos rápidas como as vidas.

Finalmente, me diz ela, vai sair do meio da quadra e ir de caminhão até a esquina onde, de longe, via carros, bicicletas e pessoas disputarem travessias. Logo ela que só disputou sombra e o tapete de folhas caídas nas pedras do chão: jeito de acarinhar quem passava...

E segue em lembranças, com lágrimas no caule partido. O velhinho rabugento que, diariamente, varre as calçadas. Os lanches baratos. A sede dos dias quentes. O frio das sombras. A passagem dos que vão para o parque. O riso dos amigos, a fumaça da erva que tonteia e os flertes nas mesas de bar.

E me confessa que, no fundo, não tem testamento. Que o que tem, o que tinha, deixou em vida. Queria só conversar, desabafar e confessar que, na verdade, o que mais entristece é não poder ver mais os blocos de carnaval passarem na Lima. Em um balançar de folhinhas ainda vivas, foliãs, ela me sussurra baixinho:
"Bandeira branca, amor, não posso mais, pela saudade que me invade, eu peço paz..."


Há 4 dias um vendaval de apenas uma hora carregou mais de mil árvores de Porto Alegre. Vão fazer falta...

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