A CULPA, AS ESTRELAS E A BOCA ABERTA DO MINISTRO

Figura 1: Nada a declarar. Fonte: microvip.com.br
Ernande Valentin do Prado

Em um mundo cada vez mais parecido com as grandes ficções científicas distópicas, parece cada vez mais plausível culpar a vítima por tudo de errado que lhe é infligido. Se a mulher é estuprada, a culpa é dela por ser atraente, não do doente incentivado pela sociedade. Se o aposentado é obrigado a conviver com uma aposentadoria insignificante, a culpa é dele por não ter enriquecido quando jovem. Se a criança não chega a faculdade, é culpa dela, porque poderia ter se esforçado mais. Mentalidade dos vencedores, mas transplantada para as vítimas, numa espécie de síndrome de Estocolmo sinistra.
Mas algumas pessoas exageram. Vai vendo...
Dias destes, em uma rede de rádio que toca notícias, um Ministro do Tribunal Eleitoral, afirmou que o povo não é vítima, mas culpado da existência dos maus políticos. Alguma semelhança com a introdução deste texto, não é mera coincidência.
Será que esse senhor, com tanto poder, tanto estudo, tanto dinheiro, privilégios e mordomias pagas com o dinheiro que poderia ser mais bem aproveitado se aplicado na melhoria da vida do povo, está fazendo algo mais do que jogar areia em olhos já tão embotados?
Dizer que o povo é culpado pelos maus políticos poderia ser uma baboseira sem tamanho, uma demonstração de ignorância contumaz, cegueira diante do “obvio ululante”, se não fosse uma estratégia astuta de culpabilizar a vítima, assim como faz alguns profissionais de saúde ao dizer que a responsabilidade por estar doente é do indiviso que sofre, é o mesmo que culpar a mulher estuprada e não o facínora machista que a estuprou.
Parece que a intenção deste ministro ao afirmar o absurdo, está clara para quem se beneficia do esquema, assim como o estuprador sabe o que significa ser inocentado (por seus parceiros machos) por ser um doente violento, perigoso e covarde, porém o que dizer das vítimas da injúria? Será que não acabam se convencendo que são responsáveis por cair na armadilha?
Se o povo é realmente culpado da existência de tantos políticos covardes, criminosos comuns, charlatões, mentirosos, safados, integrantes de quadrilhas, como diria os titãs: “filho-da-puta, corrupto, ladrão”, poderia ele reclamar pelo modo como é roubado, vilipendiado, humilhado, destratado pela maioria dos políticos, dos juízes e até pelos servidores públicos?
Se ele é culpado por sua tragédia, só lhe restaria escolher melhor, não é isso?
Fica parecendo que o sistema é bom, que funciona e possibilita boas escolhas. Será que é assim o nosso sistema eleitoral?
Será que senhores, como esse ministro e outros da mesma laia dele, (de terno e gravata, com o bolso e a barriga cheias a custo do estado), quando dizem que o povo não escolhe bem, não estão simplesmente querendo dizer que o povo não está escolhendo quem eles gostariam que fossem escolhidos? Será que eles se importam com a escolha de pessoas honestas, honradas, decentes?  Qual administração na história do Brasil investiu realmente em promover os menos endinheirados? Será que ministros, juízes, promotores, deputados, senadores e todos esses têm condições morais de julgar as escolhas populares? Será que quem faz do Brasil uma monarquia retrograda, corrupta, violenta e indigna não são essa gente que deixam soltos, e se candidatando com aval da lei ridícula da ficha limpa, gente como Maluf, Cunha, Sarney, entres dezenas de outras famílias que fazem inveja a Don Vito Andolini Corleone?
Um ministro dizer que a sociedade é culpada pelos maus políticos não é ignorância, não é burrice, nem miopia, essa gente não tem direito a ser ignorante. Esse ministro e os jornalistas que não ofereceram contraditórios às afirmações ridículas, agem de má fé, possivelmente em conluio, mas pode ser apenas que não sabem, não possam dizer a verdade, não queiram, tenham se acostumado a mentir, por dever profissional e colaboracionismo.
Só em fevereiro de 2016, em apenas um estado brasileiro, a Paraíba, 180 prefeituras foram arroladas em denúncias de desvio de verbas. No estado de São Paulo estão desviando dinheiro da merenda escolar, da construção do metro (que não pode ser investigada por 50 anos). Em Minas Gerais aeroportos são construídos com dinheiro público em terras de parentes do ex-governador, quase todas as grandes empresas que fazem negócio com o estado estão envolvidas com pagamento de propinas, órgãos de imprensa e personalidade públicas estão envolvidas em sonegação de impostos, grandes infratores multados por órgãos ambientais não pagam as multas milionárias fictícias, se o presidente da câmara dos deputados é um canalha convicto e chantagista (que lavou dinheiro até na Igreja de um conhecido pastor boca aberta, que segundo o Boechat, deveria procurar uma rola), se o presidente do senado é réu de dezenas de processos e o judiciário, com seu aparato técnico, financeiro, moral, não consegue fazer nada, por que o povo conseguiria?
A justiça não consegue (ou não quer fazer nada), não consegue punir ninguém (a menos que a punição lhe interesse de alguma forma), e pessoas envolvidas com tudo isso, em qualquer eleição, são candidatas com aval da lei da ficha-limpa (ridícula demais), a culpa é do povo?
Se o judiciário, com todo seu aparato jurídico, leis, normas, verbas, não consegue fazer nada, como o povo pode conseguir. Posso entender que a justiça não quer fazer nada e que o Ministro está sugerindo que o povo deveria linchar os corruptos?
Será que o povo, vítima deste sistema montado pelas classes dirigentes: politica, financeira e culturalmente, pode ser responsável por não conseguir escolher corretamente entre o canalha da hora e o ladrão do patrimônio público de sempre?
Quem permite que esse sistema eleitoral (que não parece ser mais do que uma armadilha) continue funcionando, quem decide quem poderá ser ou não candidato, quem escolhe financiar esse ou aquele candidato, não são os verdadeiros responsáveis pela eleição dessa gente e faz do povo o bode expiatório perfeito de sempre?
Se os deputados, senadores, empresários, ministros, juízes, promotores e todos os outros, não fazem nada para mudar a lei (armadilha eleitoral) que garante a eleição, a reeleição de pai para filho, a culpa é do povo que não faz as leis, que não tem como obrigar que as leis já feitas sejam cumpridas com bom senso?
Qual o mecanismo que possibilita a sociedade punir o procurador de justiça que engaveta denúncias contra seus aliados de classe?
Qual a ferramenta pública que possibilita ao cidadão de bem punir o juiz que abusa do poder, que ganha acima do teto do estado, que usufrui de auxílio moradia, mesmo tendo casa onde está lotado, que emprega seus familiares juntos aos políticos e órgãos de imprensa, que faz consultoria para grandes empresas interessadas em fazer negócios com o estado ou se livrar de multas?
Como o povo pode, por sua iniciativa, destituir um prefeito, um governador, um presidente, um vereador, um deputado ou senador inútil, corruptos e que lhe enganou durante as eleições?
Qual o mecanismo público (que funciona) obriga o Ministro da Saúde a cumprir o que o conselho de saúde delibera?
Qual o mecanismo público que possibilita ao cidadão comum denunciar e demitir um servidor público incompetente, que atende mal, que causa prejuízo ao interesse público e que quase nunca vai trabalhar?
Qual o mecanismo que dá poder ao povo para confiscar os bens das empresas envolvidas em corrupção, em proibi-las de fazer novos negócios com o estado?
Vamos ser sinceros, o povo não tem poder, a não ser na retórica (quando interessa) de alguém que deseja tapar o sol com a peneira. A suposta democracia representativa, o sistema eleitoral e as possibilidades de escolha nada mais são do que farsas bem montadas que possibilita que outros (endinheirados) continuem governando, como sempre foi, desde o império português.
Partidos decidem quem vão filiar e poderá ser candidato à um cargo público, quase sempre os partidos, representado por meia dúzia de gente, opta pelo que há de pior entre as possibilidades, como fala José Padilha.
Para completar, quem decide quem, entre as escolhas dos partidos, vai ganhar as eleições, são os financiadores de campanha, geralmente grandes empresas, como essas envolvidas na Lava Jato. Elas fazem isso porque querem o controle do estado (e controlam), querem fazer negócios milionários, e não se importam em pagar propina, roubar, mutilar a nação.
Se o ministro vê nisso democracia e transparência e que o povo, sem pegar em armas, tem condições de mudar a situação, é bobo ou quer culpar a vítima pelo estupro.

[Ernande Valentin do Prado publica na Rua Balsa das 10 às 6tas-feiras]

Comentários

As mais vistas