O GURI DAS TRUFAS


Maria Amélia Mano


               Rua nua, ter rua, ter nua, ternura...

         Brincadeira de palavras curtas, vindo no pensamento enquanto tomo café. Penso que todos os lugares deviam ter cafeteria e lembro dos bons: livraria, floricultura, museu, até cemitério!

         Caminho!

         Na calçada do supermercado, o homem negro e alto insiste em distribuir panfletos. Tem o olhar de quem vê muita importância no que faz. O panfleto é de propaganda de depilação. Parece que pouca coisa faz sentido.

         Mais adiante, o mendigo me chama de professora. Me pede um trocado. E diz que gosta do meu chaveiro de gato de Alice. Me surpreendo dele reconhecer. Teve alguma infância.

         Pego e logo salto do ônibus, rapidinho... Trajeto que até poderia fazer a pé se não fosse o tempo ruim. Tem guarda chuva virado pra todo canto. É até bonito.


            

            A mulher que vende sorvete, daqueles de calçada, de máquina que sai em espiral rosa forte, canta: "o teu olhar... cruzou no meu...". Vou caminhando e cantando o resto: "a minha boca na tua se perdeu"... E fiquei com a música o resto da manhã...

         E no mercado, no centro, uma velhinha faz ginástica em uma tenda armada com som e uma professora de malha justa. Alguma promoção de entidades que trabalham com a terceira idade. Ela era a mais animada.

         No terminal de ônibus, um músico de rua toca uma canção de amor e um passante para e escuta, atento. Ele sorri e chora e, por instantes, parece que canta com o músico.

         Ainda na espera do ônibus, o guri das trufas, de terno e gravata, vendendo "trufas  universitárias" para pagar a faculdade. No início, ninguém dava bola. Agora, conversa e sabe da história de todos na fila. Faz negócios no orelhão abandonado. Nunca compro.

          Meninos batem bola na parada. Não se conhecem. Nem conversam. A bola é ponte, palavra, diálogo de dois pés. Mas a bola escapa dos dois e vem bem no meu pé. Dou chutinho desengonçado. Eles riem. Todos ainda sem se falar. Só a bola entre nós.

         E já no ônibus vejo menino vendendo laranja no sinal com a camisa do Messi. “Qatar Airlines”. Não posso imaginar a distância do Qatar, a distância do menino e do Messi...

         Mas um dia, cortei caminho e desci no hospital. Precisava pedir uns papéis e saio de lá envolta de fumaça de churrasquinho. Tem venda na porta principal. Alimento rápido para quem visita, para quem consulta. E tem venda de brinquedo na porta do hospital da criança. Colorido.

         Sigo para a avenida para pegar outro ônibus. Paro na banca de revista. Uma velhinha desorientada pede um número inexistente. “Deve ser do lado de lá”, diz o dono da banca, mal humorado. Sotaque argentino.

         Uma passante pede o papel da senhora e é o endereço de uma cartomante. Começa uma nova conversa na banca de revista: “deixe disso senhora, ela vai é tomar seu dinheiro!”

         A senhora diz que quer saber da filha que não fala. Digo que ela se acalme que a filha vai falar, a seu tempo. Mas a senhora segura o papel com o número como quem segura uma certeza e segue sua busca.

         O argentino não se mete. A senhora que deu o primeiro conselho fica esbravejando, falando mal dos charlatães adivinhos. Eu sigo para a próxima parada. Espero pouco pelo ônibus que logo vem.

         Perto da minha parada. Periferia. Salão de beleza de vila com foto da Scarlett Johansson. A mesma sensação de distância do menino e do Messi.

         Uma mulher corre pelada no parque. Dizem que é pela liberdade. Dizem que é pela loucura. Rua nua, ter nua, ternura...

         Jogo de palavras curtas, eu sorrindo meio sozinha, gostando de todas as pequenas histórias. A infância lembrada do gato de Alice. A trufa da parada do centro que nunca experimento. Emoção de quem ouve a música. Brinquedo de consolo e busca pela cartomante.
        
         Tanta coisa acontecendo. Muita vida que passa. Parece tudo sem sentido. Relações tão distantes. Mas tudo tão junto, provando que as calçadas são valiosas, as paradas são mundos...

         Caminho!

         Já na vila, cumprimentos, perguntas, pequenas consultas, informações. Trajeto de trabalho já trabalhando. Sensação boa, familiar.

         Chego no trabalho “mesmo” e sento com os colegas, mais um café pequeno com gosto de “vamos lá!”. Ah, sim! Vamos pensar em outros bons lugares onde deveria ter cafeteria...

         No País das Maravilhas! Em vez de chá, lebre e chapeleiro deviam mesmo era tomar café...

       Na volta, ônibus no centro, fim e começo de linha, todo ciclo é assim, é começo e é fim ao mesmo tempo. Cobrador e motorista sempre descem pra fumar um cigarro, antes da próxima volta. Os dois queridos. Um dia, atrasados, não deu pra fumar e seguiram mal humorados, sem responder ao meu "boa noite".

        E o dia seguinte, outras histórias, resolvo experimentar as trufas, finalmente. O guri sorri e pede pra "seguir no face": "trufas universitárias". Estava eu cansada de tanto o que fazer. E entro, e curto....

          Leio um pouco do mundo do guri das trufas. E esse texto, meio torto, que foi feito de muitos dias de caminhos e trajetos e esperas, esse texto, esse dia de cansaço, agora, tem outro nome...

         Porque adoçar a alma da cidade não é fácil...  
             
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