ORAÇÃO CORAÇÃO CANÇÃO


Maria Amélia Mano


Meu amor, essa é a última oração
Pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa 
Nele cabe o que não cabe na despensa

Cabe o meu amor 
Cabem três vidas inteiras 
Cabe uma penteadeira 
Cabe nós dois 

Leo Fressato

            Então ela me vem com um exame positivo para Chagas e com um eletrocardiograma alterado. Não sente nada. Nasceu na fronteira, estudou pouco, começou a trabalhar cedo. Morava em casinha cheia de frestas, coberturas de palha. Era frio, lembra. A mãe já contava que existia o tal percevejo, o barbeiro. Ela se assusta quando digo que vamos pedir uma ecocárdio para “ver melhor o coração”, mas “sem pressa”, “só rotina”. Então, ela me pergunta se não basta ouvir o coração como sempre faço.

            E respondo: “Olha, sabe quando a gente ouve uma música bonita? Então, a gente escuta tudo junto ao mesmo tempo, todos os instrumentos, mas não sabe quem toca o quê, qual o som de cada coisa, não sabe nem do rosto, nem do esforço de cada músico. Daí o mais legal, se der, é ver as pessoas tocarem, cada um do seu jeito. A mesma coisa eu! Eu escuto teu coração fazer: ‘tum-tac’. Então, do mesmo jeito é melhor ver o que cada parte faz, como faz, igualzinho à música que falei, igual!”

            Ela sorri, aliviada. Sorrimos e entendemos que essa vida é bem bonita mesmo, cheia de boas invenções, cheia de poesia. Melhor quando a vida e a saúde são entendidas como uma arte também, arte que toca, que canta, tranquiliza e faz sorrir e imaginar uma linda música no meio do peito. Música animada, dessas de fazer rebolar, batucada, de dançar a dois, em salão à meia luz, rosa no cabelo e beijo roubado. E levar pra casa o sabor e a surpresa e continuar dançando, enquanto a música tocar no peito, dançando, dançando...




Foto: lambe-lambe da rua de Recife, parte do Projeto da artista Christina Machado: “Faça o que vier no coração” de 2008.


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