IDA


Maria Amélia Mano

De todos os mundos, quero aquele que eu possa fazer mágica, que eu possa voltar no tempo, que eu possa ter poder de previsão, intuição infalível, palavra certa que salva, mão que afaga no lugar preciso da dor, atenção extrema para todos os abismos, todas as armadilhas...

De todas as horas, quero aquela em que me foi soprado o encanto que não percebi, o mistério escondido entre os ponteiros dos segundos, o sol que custou a aparecer e, entre os raios, aquele aviso discreto de que eu poderia fazer a diferença de uma vida inteira.

Quero, de todas as sabedorias, aquela que me cabe, aquela que me ilumina, a que me salva do meu próprio juízo, a que preciso para ser precisa, para saber que não tenho poderes e o sofrer  era previsto ou que tenho mais do que penso e todas as respostas cabem a mim.

Quero, para os dias que passaram, um pouco de generosidade minha, por mim, pela minha intenção de ser melhor e, para os dias que virão, um pouco de compreensão do meu caminho que, talvez, precise ultrapassar pontes e trilhos, subir morros e parar no topo possível, para pensar...

E que eu pense e repense nas minhas idas-vidas e nessas idas-vidas que passam por mim, nesses tempos que ajudam a criar, recriar, nomear, diagnosticar em 20 solenes minutos de encontro e, sim, desencontros, alguns medos e sonhos de cuidar.

E que eu saiba me abraçar e abraçar com toda força a dor que me envolve, que nos envolve, sempre, na mais injusta perda, na mais profunda lágrima, nesse fio invisível que é corpo e é alma e é esse tempo que nos leva, nos envelhece e nos adoece, mas nos cura desse ofício de viver com paixão.

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