PARA NÃO MORRER DA VERDADE


Maria Amélia Mano

Já lhe dei meu corpo, minha alegria 
Já estanquei meu sangue quando fervia 
Olha a voz que me resta 
Olha a veia que salta 
Olha a gota que falta pro desfecho da festa 
Por favor 
Deixe em paz meu coração 
Que ele é um pote até aqui de mágoa 
E qualquer desatenção, faça não 
Pode ser a gota d'água 
Deixe em paz meu coração 
Pode ser a gota d'água 
Pode ser a gota d'água

Chico Buarque

            Então, as folhas do jornal me espantam. Em Arroio dos Ratos, aqui pertinho, um incêndio atinge uma clínica para dependentes químicos. Sete homens entre 18 e 40 anos morrem queimados, presos em um quarto... Presos em um quarto, sim... Assim e só assim, aparecem as reais condições dessas clínicas para dependentes químicos. Prisões. O pai, o irmão, a família que via na internação do jovem de 24 anos, uma saída, uma cura, uma esperança, choram de dor e culpa. O estado diz que é responsabilidade do município, o município diz que é responsabilidade do estado. São só sete usuários de drogas...

            Em Morro Redondo, cidadezinha do interior, colônia alemã, um rapaz morador em área rural, terreno de três hectares, família de criadores de galinha, acesso só por estrada de terra, responde mensagem sobre compra de armas, terrorismo. É véspera de olimpíadas, ameaças do Estado Islâmico. Uma ação espetaculosa é montada e chegam homens fardados onde pouco chega qualquer coisa, seja saúde, seja educação. Prendem o rapaz. O Ministro da Justiça diz que era uma “célula amadora”. Pai chora, vai tirar o filho menor da escola, vai sair da cidade. Serão vistos na comunidade como terroristas.

            Queda de marquise de uma lanchonete no centro de Porto Alegre mata duas mulheres, era a manchete. Sim, elas só estavam passando. Lugar perto de um grande complexo hospitalar onde as pessoas buscam lugares mais populares para fazer um lanche, enquanto cuidam dos familiares internados ou esperam a consulta no ambulatório especializado. Eram três mulheres no local. Uma delas escapou porque simplesmente se aproximou mais da vitrine, de olho em um pastel. Acho que isso de gostar dos sabores da vida é o que nos salva de dores, embora um pastel de esquina não seja exatamente a maior alegria.

            Página de cultura, agora. Cinema, shows e a versão recital do clássico musical do Chico Buarque: Gota d'água (a seco). Mas nada mais criativo e espetaculoso que a vida real... E já pensei em um longa denso sobre os sete rapazes de Arroio dos Ratos. Falar de cada um e das famílias pobres que buscam ajuda. E ainda, quem sabe, uma pequena comédia da humilde família do terrorista criador de galinhas de Morro Redondo? Talvez só uma crônica ou um samba. No fundo, no fundo, é preciso de algo para enfrentar a injustiça, é preciso de arte “para não morrer da verdade” como diria Nietzsche.

            Pela queda da marquise decido que é melhor pedir aquele pastel de nata que estava relutando em comer, em início de dieta. A disciplina não é o meu forte e a vida precisa ser mais doce. Meu horóscopo diz: “se munir de boa vontade”. Acho que pode ser a saída, a chegada e a travessia que é o melhor para tanta tristeza, como lembra Guimarães Rosa. Travessia que é surpreendente, derradeira, como foi para as mulheres mortas simplesmente por passarem. Então, solita na mesa, eu e o jornal, sinto o sabor de sexta-feira com um lamento e sonho cantar que nem a Bethânia: “deixe em paz meu coração...”


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