TOQUE DE RECOLHER


Maria Amélia Mano

Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia
Assim! De um sol assim!
Olavo Bilac

                Uma vez, uma senhora pediu visita domiciliar porque estava chovendo e a filha não queria se molhar. A chuva era a mesma para mim. Mas por ser médica eu não me molharia também? Também não deveria chorar pela morte da menininha que atendi? Ou deveria ter escudo mágico no peito, na cabeça, contra balas de facções rivais do tráfico? Deveria ser imortal, ter poder de adivinhar pensamento e quando exatamente o remédio vai fazer efeito.

                Um dia. Assim. De volta, de repente, no meio do peito, essa sensação de urgência, a impaciência, o desejo de sair e sair e sair sem se despedir. De volta, sem pensar, ao acaso, por segundos não medidos, surpresa, essa dor antiga que assalta e assusta de costas, sem preparo. Dor, não. É desconforto, desalento, desatenção, desconversa, desajeito. É sem jeito. Não tem jeito: o dia se perdeu já na manhã...

                É reencontro com história de desamor e descarte, é caminhada na tentativa de resgate. É trajeto longo e tenso, imenso, sem fim, assim, porque se diz: as ruas estão mortais. Sempre foram. É dia que parece especial e nos esforçamos pra ser qualquer um. E então, é toque de recolher. Ter que olhar o ferimento com medo do próximo segundo, ser legal, sorrir, fingir que está tudo bem, acalmar, quando as bombas ameaçam cair lá fora, em uma hora.

                “Tem que ser rápida!”, “É preciso sair!”, dizem no corredor da unidade. E mais uma ficha na porta pra atender. Como pode ser tão contraditório? O que passa pra consulta não deveria passar porque pode esperar o cessar fogo. Amanhã. “Volte amanhã”, repito, assim, com delicadeza. Aos que já estão, a avaliação prévia é rápida. Me esforço depois, pra entender. Depois, ainda, quando indico e há procedimento, é feito na ligeireza do “tem que acabar logo”.

                “Sinto dor no peito e angústia”, diz a senhora, assim, na consulta. Quem disse que também não sinto? Quem disse que também não posso ser testemunha, alvo, notícia? Quem disse que não tenho pressa? Que não tenho gente me esperando, massa com legumes programada com amigos. E vinho. Esse, o que serve pra afogar e desafogar mágoas em dança de desabafos. Espera pelo fim do dia que deve redimir essas horas de manhã e tarde.

                Mas é serviço essencial. Ameaça só não é motivo. Tem que ter coisa real. Gente real se esforça pra ser profissional, no meio do caos e da falta de antibiótico. Mas é gente. Gente assim. Culpa de ser gente e sentir apreensão, solidão, fraqueza, mesmo sendo o centro, por onde tudo gira e volta, depende. Responsabilidade de ser forte, não se molhar com a chuva, não morrer de bala perdida, não adivinhar, não se decepcionar, não chorar...

                Insônia faz o dia ter mais de 29 horas. E um sol convida pra brindar, brincar na rua que, hoje, parece, já está segura. Um dia, de volta, de repente, esperança de ar doce pra aquecer a manhã. Abro a janela e é esse o sol que eu queria antes de sair em viagem. Me despedir, sim, de um tempo e partir para o meu toque de recolher. Esse toque meu, suave, carícia, de recolher estrelas da noite que não dormi e distribuir pelo dia que quero abraçar, pela vida que quero abraçar, assim, nesse sol assim.
                  

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