de morrer na rede.... com Sherezade [Julio Alberto Wong Un]


Getsemani.  Cartagena de Indiias. 



para Wellington Araújo 
que me contou esta história em 2013


Que seres estranhos somos nós que andamos falando das Mil e Uma Noites na manhã de quinta-feira em Benfica, a caminho da Fiocruz? Encontro casual no ônibus. Alegria. Nostalgia rememorada instantaneamente.

De alguma maneira chegamos a isso. Falando dos livros talvez. Do tempo curto para tanto mundo de livro. Das distrações. Quanto mais se trabalha menos tempo para a leitura, você disse.

Claro. É verdade.

Falamos da promoção da Livraria Cultura que perdi (a coleção das Mil e Uma Noites na Melhor Edição a um preço menor da metade do normal, etc.).

Eu: mesmo assim, sem tempo, tento ler a OPC do Mario Quintana (obra poética completa). Quintana para mim é Porto Alegre. E Porto é o lugar onde eu quero morar. Onde amigos queridos florescem. Onde cada lugar tem significado profundo para mim. Onde está a alma que me faz bonito. E aprendi a amar ser bonito. Gosto do que floresce desde mim quando estou bonito, eu disse. Isto foi semanas antes de eu sangrar. Nem imaginava. Humano demais eu.

E ai você, despreocupado, conta. E conta. E eu não tive mais opção do que seguir contando. Para que a vida não acabe. Ou não seja acabada. Como Sherezade era ameaçada. No fundo, aquele que diz intensamente renova essa postura: dizer para não morrer.

Mas ele - o Wellington e não o califa - disse: meu pai andou bem adoentado. Veio falecer. Dai eu fui ver ele meses antes da morte. Eu levei o livro um dessa edição que você não conseguiu comprar. Capa dura, folhas nobres, texto impecável, mágico, que prende e enfeitiça.

Faz sentido, eu pensei. Mil e Uma Noites e feitiço de sempre quero mais.

Dai meu pai andava fraquinho demais, pequenino, ele que foi enorme e forte como um touro. No interior do Piaui convenci ele a deitar na rede e ler para ele as histórias das mil e uma noites do meu livro. Uma a uma. Vagaroso. Repetindo para que ele escute bem. Para que fique.

Repetiçao. Mantra. Oração para repetição de carícia. Pensei nisso no instante.

Ele gostou. Ficavam horas na leitura.

Mas tudo avança - o tempo é lento para os que amam mas é surdo aos pedidos de imobilidade. No fim há o fim.

Mas essas tardes, você falou sem palavras, foram algo que me aproximou demais dele nessas última semanas da vida dele.

E de alguma forma, eu penso, a história continua, a próxima leitura se aproxima.

E eu ainda sinto a alma que me embeleza. Mesmo que o tempo não tenha perdoado minhas paralisias.

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