DEZ HISTÓRIAS SOBRE UNIVERSALIDADE

Folhas molhadas. Ernande, 2015.
Ernande Valentin do Prado

1

Dona Cleide acordou bem cedo na quarta-feira. Finalmente juntou todas as coragens necessárias: foi fazer o bendito exame Preventivo do Câncer de Colo de Útero.
Caminhou até a Unidade de Saúde de seu bairro, que não ficava longe. A moça da recepção, sem desviar o olhar da tela do computador, disse:
- Hoje não vai ter exame porque o ar condicionado da sala não tá funcionando.

2

Marilda passou a noite com dor de dente. Um siso insistia em rasgar sua gengiva. Fez febre e jura que teve alucinações com Freddy Krueger lhe perseguindo. O dia nem tinha amanhecido completamente quando chegou à Unidade de Saúde aonde sabia que poderia ser atendida como fora de área, já que morava em local descoberto, como eles diziam.
Viu quando a dentista chegou, por volta as oito e meia, já a conhecia de outros atendimentos. Até bom dia lhe respondeu. A odontóloga, moça bem novinha, parecendo recém formada, entrou no consultório e em alguns minutos saiu e anunciou:
- Hoje não vou atender ninguém: tá faltando touca de novo.
3
Luzia caminhou da Cohab 4 até o Centro de Saúde, puxando pela mão sua escadinha de crianças: Jeferson de 8 anos, Clarice de 6 anos, Simone de 4 anos e Renato de 3 anos. Uma fotografia linda de ver. Todos arrumadinhos, limpinhos e comportados. Ela vinha na frente, com um bolsa atravessada no peito.
Na recepção a moça perguntou:
- Cadê o cartão SUS das crianças?
Luzia procurou na bolsa, virou, revirou. Despejou todo o conteúdo no balcão e não achou.
- Sem cartão SUS não tem como achar o prontuário, mas pode voltar mais tarde, que tem vaga.
Luzia voltou para casa puxando sua escadinha bonita de ver, embora a moça da recepção não tenha notado, ocupada que estava tentando convencer o segurança da unidade a comprar-lhe um perfume do catálogo da Avon.

4

Domingo Dona Sônia acordou com um derrame no olho esquerdo. Só percebeu quando olhou no espelho e viu que a parte branca do olho estava toda tomada de vermelho. Assustada foi à Unidade de Saúde. A moça da recepção, ocupada selecionando os prontuários das pessoas que estavam agendadas, nem olhou em seu rosto e foi logo dizendo:
- Hoje não tem mais vaga.
Dona Sônia, que não era de insistir, voltou para casa. No dia seguinte, bem cedo, estava na unidade de saúde. Do portão foi despachada pela mocha responsável pela limpeza:
- Nem adianta insistir: hoje a médica só atende gestantes.
Foi para casa mais uma vez. No caminho passou à igreja e rezou um pai nosso e uma Ave Maria. No dia seguinte, ainda acreditando, foi à unidade de saúde. Ao chegar estranhou, não encontrou ninguém aguardando ser atendido. Na recepção só a moça do primeiro dia:
- Hoje a médica está fazendo visita domiciliar.
- Minha fia, disse calmamente Dona Sônia, eu tô precisando muito de ver a médica.
- Mas hoje é dia de visita domiciliar.
- Eu espero ela voltar, minha fia...
- Ela nem passa aqui hoje, vai direto de casa para as visitas e de lá vai embora.
- Não tem outra pessoa com quem eu falá?
- Não, a enfermeira vai junto com ela para as visitas e a Técnica de Enfermagem tá doente, não veio hoje.
Dona Sônia saiu, de novo, da unidade de saúde sem atendimento, por via das dúvidas, no caminho de casa, passou na igreja.

 5

Dona Esmeralda bateu à porta do Enfermeiro. Lá de dentro ouviu a voz:
- Pode entrar, tá aberta.
A mulher, de pele muito bronzeada, rugas ao redor dos olhos, mais de um metro e oitenta de altura, aparentando uns 45 anos, entrou tímida. Não sentou na cadeira a sua frente. Falou em pé.
- Eu queria fazer o preventivo de câncer.
- Nossa! Admirou-se o enfermeiro, exageradamente, talvez por já ser quase meio dia.  E acrescentou:
- Qual seu nome?
- Esmeralda.
- Eu acabei de terminar as coletas, já desmontei a sala. Agora só na próxima semana.
- Eu me atrasei. Ia vir de carona com o ônibus das crianças, mas não consegui e vim caminhando.
- Aonde a senhora mora? Questionou o Enfermeiro, ainda mais preocupado com a papelada que preenchia do que com a mulher à sua frente.
- Moro no distrito do Tuiuiú.
- Sei, lá não é nossa área. A senhora precisa procurar a Unidade de Saúde da Família da área rural.
- Eu sei, mas é que aqui eu soube que fazem o preventivo toda sexta-feira e é o dia que eu posso vir. Disse Dona Esmeralda.
- Mas a senhora pode procurar a outra unidade, eles lhe dão uma declaração de comparecimento, não vai perder o dia de trabalho.
- Tá bom, eu vou. Só vim mesmo porque tava sentido uma dor no pé da barriga.
Dona Esmeralda se despediu e saiu, dando as costas ao homem.
Esquecendo seus papeis, seus relatórios, sua sala desmontada, o enfermeiro deixou-se recostar na cadeira por alguns segundos, atormentado com o que tinha acabado de fazer: que inferno, pensou ele no seu íntimo. A necessidade não tem adstrição.
Saiu correndo pela Unidade de Saúde, já vazia àquela hora, alcançou Dona Esmeralda já na calçada, do outro lado da rua.
- Dona Esmeralda, gritou ele, arrumando o cabelo e o jaleco branco que enroscou no portão enferrujado da unidade, onde ficou pendurado um pedaço de pano branco e um botão.
- Pode voltar à minha sala? Vou dar um jeito de fazer seu exame, assim não vai ter perdido sua caminhada.

6

A moça na recepção riu nervosa, irritada, sentido o mal cheiro do homem. A moça da limpeza passou a vassoura em seus pés. Outras pessoas, que esperavam a vez de ser atendidas, taparam as narinas.
- O que o senhor quer? Disse a recepcionista.
- Tó com dor no pé da barriga, disse o homem em trajes maltrapilhos.
- Tá com o cartão SUS?
- Não tenho. Respondeu ele, instintivamente procurando nos bolsos.
- Qual seu endereço?
- Eu moro na Rua, durante o dia ando por aí, de noite durmo embaixo daquela marquise, onde a senhora me vê todo dia, quando vem trabalhar.
- Tem comprovante de endereço?
- Tenho. A senhora pode comprovar, já que me vê lá todo dia.
- Não é assim que funciona, tem que ter o papel, tem que ter Agente de Saúde que lhe visita uma vez por mês. Ironizou com um sorriso no canto da boca, a recepcionista, olhando para as usuárias, esperando apoio moral.
Elas riram desconcertados.
- Você não pode ser atendido aqui, disse a recepcionista. Precisa procurar o consultório de Rua. Pode ir lá no Centro, na Secretaria de Saúde, e procurar saber aonde eles atendem.
- Mas eu moro aqui, moça, e tô com muita dor. Insistiu o homem.
- Aqui a gente só faz saúde da família e o senhor não tem família, tem?

7

- O seu atendimento, meu senhor, será feito no CAIS Mangabeira. Disse a assistente administrativa da Unidade de Saúde.
- Cais, não sei onde é, eu moro faz pouco tempo por aqui. Pode por favor me explicar onde é e o que é?
- Não sei explicar. O senhor procura, disse a mulher, já virando-se para atender à próxima pessoa.
- Então não precisa explicar, só escreve aqui o endereço que eu acho. Disse conformando-se o rapaz.
- Eu não sei o endereço e nem tenho tempo de procurar. O senhor que dê um jeito. Não tenho que fazer mais que isso.

8

A enfermeira da Estratégia de Saúde da Família disse, referindo-se a mulher que andava pela cidade enrolada em um colchão velho:
- Eu não conheço esse caso.
O Conselheiro tutelar afirmou, sem nem ao menos sentar:
- É caso de interdição, não sei mais o que fazer com essa senhora.
A diretora do Centro de Assistência Psicossocial, referindo-se ao mesmo caso, disse:
- Já conheço a situação faz anos. A paciente não adere ao tratamento. Não tem nada que o CAPS possa fazer.
A assistente social, muito consciente, enfatizou:
- Eu já fiz tudo que podia por ela. Agora só posso rezar.

9

Na reunião, o coordenador da equipe disse:
- Vamos fazer uma visita à delegacia. Parece que tem muita gente lá precisando de cuidados. E como tá em nossa área, vamos lá ver.
Ninguém questionou, ninguém estranhou, ninguém disse que “bandido bom é bandido morto”.
- Que dia vai ser? Perguntou a técnica de enfermagem, com a agenda na mão.
A nutricionista perguntou:
- Vamos só uma vez ou vamos voltar outros dias?
- Eu sempre achei que deveríamos visitar a delegacia, tem preso de todo lado lá, e a maioria nem família tem aqui na cidade. Disse o Agente de Saúde da microárea da delegacia.
Depois da reunião a Médica da equipe chamou o coordenador para conversar. Sozinhos em sua sala, ela disse:
- Tem tanta coisa para fazer e você ainda inventa mais isso? Desabafou deixando-se cair na cadeira, muito irritada.
- Por que não falou isso na frente de todos os outros?
- Não vou me expor na frente dessa gente.
- Esse é o nosso trabalho. Disse sem rodeios o coordenador, já abrindo a porta para sair da sala.

10

A nova enfermeira, contratada recentemente para substituir o colega que fora demitido por não fazer campanha eleitoral, vendo a programação da equipe para o mês, disse:
- Por que a reunião com as gestantes é feita no salão paroquial da igreja?
- As irmãs já tinham um grupo de gestantes, disse a Agente Comunitária de Saúde, e para não ter dois grupos, o enfermeiro achou melhor fazer os encontros junto com elas.
- Eu não vou fazer assim. Disse secamente a enfermeira. Vamos montar nosso próprio grupo.
Antes que a Agente de Saúde pudesse abrir a boca para argumentar, a enfermeira novata disse:
- Eu nem sou católica.
[Ernande Valentin do Prado publica na Rua Balsa das 10 às 6tas-feiras]

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