INSTANTES [Maria Amélia Mano]


Maria Amélia Mano

Somos instantes, palavras, poesia
Lenine

                Essa vida nossa é mais marcada pelos instantes precisos, do que pelas grandes horas de espera. Tem espera grande na maternidade, na rodoviária, no banco. Mas o mundo para mesmo é quando o filho nasce e inunda os instantes de choro, cansaço e alegria de vida. O mundo para quando os amantes se encontram após distância e tempo grandes, saudades. O mundo para quando se salda a dívida, alívio, ou quando se recebe o valor que precisa para a comida do mês.

                A menina tem 20 anos trabalha em empresa de telemarketing. Ganha o salário mínimo e um valor por cada produto vendido. Se ela passa mais de 4 minutos com o aparelho (telefone) ocioso, o computador desliga e ela precisa chamar um chefe (há muitos) para desbloquear o sistema. Dessa forma, é possível controlar o “ócio” de todos. Daí a menina engravidou. Não queria. Está só. Vai mais vezes ao banheiro. Tenta ser rápida. Mas teve bloqueio de sistema três vezes em um dia. E, em um outro dia, me diz, demorou 11 minutos pra fazer xixi. Chefe gritou.

                Essa vida nossa é marcada pelas coisas pequenas também, que nem os instantes. É marcada pelos detalhes, pela minúcia do bordado, pela delicadeza do toque na mão, pela piada curta que se derrama em risada de amigos, pelo poema lido rápido no ônibus, pela palavra dita sem querer, saída, assim, e que fica na memória uma vida inteira. A vida nossa é feita, às vezes, só de um olhar e um sorriso ou um aceno de adeus. De beijo escondido e rosa roubada, doce bem embrulhado.

                O menino tem 14 anos e está no primeiro emprego: padaria. Feliz pelo dinheiro pouco. Feliz por poder ajudar a mãe a pagar o bolo de aniversário da irmã de nove anos. Timidez que dói. Vida dura, pai pedreiro, etilista, se terminando em pele e osso em obras distantes: só onde conseguiu trabalho. Vem de 20 em 20 dias ver todos. Sente saudade. Chefe da padaria coloca o menino em lugar de mais responsabilidade, pra contar as vendas. Escreve 11 no papel e o chefe reclama: tem que botar a vírgula e os zeros, tem que botar os “reais”. Chefe gritou.

                Essa vida nossa é marcada por lágrimas. E lágrimas são razão de consulta, de dor, de doença. É a decepção da falha pública, da humilhação, da autoridade que grita e grita por causa de 11 minutos e por dois zeros depois da vírgula. Se eles soubessem, os chefes, ah, se eles soubessem o quanto tanta pequeneza faz doer! E dor grande! Para cada suposto erro, uma história por trás. Uma vida, de cada instante, de cada detalhe, essa nossa vã humanidade se esvai em um berro...

                Pelas pequenas grandes injustiças expressas em vozes altas, a gente devia fazer o tal do minuto de silêncio, talvez mais. Silêncio pelas vítimas diárias de gritos de superiores hierárquicos que admitem controle e poder a partir da humilhação. A mãe consola o menino sem pai e divide a dor comigo. Eu consolo a menina grávida. Abraço. E nosso consolo está no instante do carinho. Porque essa vida, sim, essa vida nossa é marcada por aflição, mas é no pequeno abraço, é no cafuné no colo que a gente dorme mais leve e sonha com a palavra de amor que virá, baixinha, em um instante eterno de ternura.

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