DEZ HISTÓRIAS SOBRE EQUIDADE

                                                                                                                                                                    Ernande Valentin do Prado
Destaque. Ernande, 2015

1

As oito horas ela atendeu a gestante que já estava agendada e a encaminhou para fazer os exames de sangue no laboratório do centro da cidade. Escreveu o endereço, explicou a hora de chegar e a preparação necessária.
As oito e quarenta e cinco atendeu outra gestante, também agendada. Encaminhou para fazer os mesmos exames no mesmo laboratório do centro da cidade. Escreveu o endereço, explicou a hora de chegar, que ônibus pegar detalhadamente e deu os vales-transportes. Falou sobre a preparação necessária.
As dez horas visitou Marina, com 36 semanas de gestação. Ela havia faltado a consulta. Em sua casa, depois de uma rápida conversa, concluiu que era preciso chamar o Samu. Quando a ambulância chegou, foi com ela para o hospital e acompanhou seu atendimento. Só voltou para Unidade de Saúde quando deixou Marina de volta em casa.

2

A enfermeira, da Estratégia Saúde da Família, diante da indagação do estudante, disse, sem rodeios:
- Não cuido de doido. Para isso tem o CAPS.
3
Na reunião em que se discutiu a divisão das tarefas necessárias para receber os recursos do incentivo financeiro do PMAQ, ele não apareceu. Disse que estava sentindo-se mal. Na reunião, realizada três meses depois, para comemorar o bom trabalho realizado por (quase) todos, ele compareceu e disse:
- A divisão não pode ser igual. Eu estudei mais, tenho mais responsabilidades. Acho que tenho direito a uma fatia maior.

4

Dona Conceição morava no morro do penteado, no tempo em que quem mandava era o Ladeira. Bom moço, nunca matou ninguém sem motivo, dizia ela.
Depois que os traficantes foram expulsos, chegou água encanada, saneamento básico, asfalto nas ruas e até uma loja das Casas Bahia e uma Agência da Caixa Econômica Federal. Algumas casas foram desapropriadas, na parte mais baixa e construíram praças, uma academia da terceira idade.
- Eu ia lá quase todo dia me exercitar. Disse ela.
Do lado de sua casa foi erguida a Unidade de Saúde, que tem o nome da mãe do governador, de quem Dona Conceição nunca ouviu falar que já tenha ido ao menos uma vez na comunidade.
Semana passada ela recebeu o primeiro carne do IPTU.
- Um luxo, nunca achei que ia ter que pagar IPTU de meu barraco.
Agora a favela tá urbanizada e, além do IPTU, tem a conta de água, esgoto e energia, que antes não tinha. Com o dinheiro da aposentadoria, sua única fonte de renda, ela acha que não vai conseguir dar conta de continuar morando no morro. 
- Dá dó, sempre morei aqui, mas acho que vou ter que vender minha casinha.
Dona Conceição ouviu falar de um Alemão que tá comprando tudo que acha por ali e fazendo hotel. Ele paga bem, lhe contaram.
- É triste, sempre morei aqui! Disse dona Conceição, olhando para o chão. Mas acho que vou ter que me mudar para mais longe, ouvi  dizer tão formando, lá para os arredores do rio, uma nova comunidade. Não tem rua para lá, nem transporte, mas aqui também não tinha, quando vim prá cá. Conforma-se Dona Conceição.

 5

- Para realizar festa não tem dinheiro, disse o coordenador.
Mas como as crianças mereciam, os profissionais se cotizaram e compraram bolo, material de decoração, presentes e contrataram uma banda de forró. As famílias e as crianças se divertiram a rodo. Os profissionais também. Até Dr. Fábio, sempre tão sério e distante, dançou com a presidente do conselho local de saúde.
Lá pelas 11 horas chegou a mulher do prefeito, toda elegante. Discursou e tirou foto com as crianças, com os servidores.
As fotos da festa que ela fez já estão nas redes sociais.

6

Na fila ele foi ouvindo as respostas da recepcionista da Unidade de Saúde do Bairro:
Para a senhora de cabelos grisalhos e vestido florido, ela disse:
- Não tem captopril. Volte semana que vem.
Para jovem senhora, de cabeços presos e shorts jeans, ela disse:
- Fazer preventivo não dá esse mês, tá faltando o material de coleta e já faz tempo.
Para gestante, um pouco acima do peso, vestido discreto até a canela, ela disse:
- Metildopa? Ih!, tadinha, acabou agorinha. Se eu soubesse que você vinha, tinha guardado para você.
Para a senhora, de cabelos pretos, bem pintados, óculos escuros, ela disse:
- Azatioprina. Nem sei que medicação é essa. Aqui não tem não.
Mas a mulher respondeu:
- Então se informa, minha filha. Eu sou desembargadora do estado e tenho uma ordem judicial para receber essa medicação agora.

7

- A gente recebeu uma doação de medicações, vem ver. Disse a Técnica de Enfermagem, enfiando a mão nas caixas de papelão.
- Veja isso aqui! Disse o colega: é super caro, nunca tem no SUS.  Vou levar, às vezes eu uso.
- Minha irmã usa esses aqui, vou levar também. Disse a outra.

8

Semana passada, o filho de seu Clovis, vendedor de frutas de porta em porta, foi julgado pela acusação de ter atropelado Silvia Maria, estudante de 15 anos em cima da faixa de pedestres e não prestar socorro.
Vai ficar preso por três anos.
Na mesma semana, o filho do Seu Ademar, da construtora Casa Forte, foi julgado pelo mesmo crime: atropelou Gorete, empregada doméstica de 42 anos em cima da calçada, na mesma rua. Também não prestou socorro. Testemunhas dizem que ele, antes de atropelar a mulher, ainda gritou: sai da frente, louca. O agravante:  ele não tinha carteira de motorista e estava embriagado, segundo três testemunhas diferentes.
Vai prestar serviços comunitários por seis meses.

9

Aqui não se discrimina ninguém, falou o homem vestido de banco e com ar de autoridade. E continuou seu discurso matinal: todo mundo vai ser atendido por ordem de chegada, até idosos, crianças e gestantes, por que não é justo passar ninguém na frente.

 10

- Sebastião Antenor de Souza. Gritou uma vez, bem alto, o médico de dentro do consultório. Ninguém se mexeu na sala de espera. Por isso ele gritou de novo:
- Sebastião Antenor de Souza.
- O que deu neste médico hoje, ele nunca foi de chamar ninguém, o próximo é que sempre entra por conta própria? Reparou Dona Raimunda e comentou com as Técnicas de Enfermagem, que rondavam ali pela recepção.
- Vou lá ver. Disse Amanda, a Técnica de Enfermagem. Mas antes de chegar no consultório ouviu de novo, agora mais alto ainda:
- Sebastião Antenor de Souza.

- Doutor, não tem nenhuma Sebastião aqui, só tem a Dona Raimunda e a Walleska, do salão de beleza, esperando atendimento. Disse a Técnica, mostrando uma folha com a lista de espera.  

[Ernande Valentin do Prado publica na Rua Balsa das 10 às 6tas-feiras]

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