Um ensaio sobre sonhar

Sonhos doces em caldas.
Talvez um ensaio sobre sonhar poderia ser uma fase do sono, estritamente calculada com máquinas de leitura do simples ato de dormir. Mas o sonho que quero escrever aqui é o sonho que você lava o rosto pela manhã, "Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga." - como já escreveu Mia Couto.

O sonho queimando em atividade da Liga de Educação em Saúde, tudo de mais especial que você deseja: "carro, casa, saúde, ser médico, ver os filhos crescerem...". Escreva aqui, neste papel, juramentado que ninguém irá ler, tocar, o sonho é todo teu. Clarice iria frizar: "acredito em sonhos e não em utopias".

Guardamos tudo com carinho numa lata de pêssego em calda, sonhos doces, doçuras, conexões, amorosidades, bens materiais. Eu que tenho a tarefa de passar riscar o fósforo e deixar a lata, a lágrima, os sentidos e sentimentos queimarem. Toda a esperança pegando fogo. Reflexões com aquela chama viva da lata de pêssego.

Nos conectamos uns com os outros: "talvez nossos sonhos não se realizem" ou "talvez os sonhos daquela pessoa, sujeito, paciente queimaram, e por isso é difícil lidar com ele". Ecoa naquela lata Drummond: "Fácil é sonhar todas as noites. Difícil é lutar por um sonho".

Ontem escuto na família rural "Deus sabe melhor do que nós os nossos sonhos", então podemos "sonhar errado"? O sonho impossível de Drummond, penso nele, nos meus sonhos, no fogo queimador de sonhos e que faz nascer empatia, cuidado, reflexões. "Afinal, há é que ter paciência, dar tempo ao tempo, já devíamos ter aprendido,
e de uma vez para sempre, que o destino tem de fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte.", Guimarães diz ao meu ouvido.

Vejo a menina de 12 anos me perguntando: "mas tia, quantas abdominais eu preciso fazer para perder a barriga, meu sonho é perder a barriga". Conversamos sobre sonhos, mas ela é resoluta, quer perder a barriga e colocar a "gordura nas pernas". Fico um pouco sem saber o que fazer eu ajudando a realizar sonhos? Sonho de perder barriga?

Volto aos sonhos queimados, talvez queimando ainda.

"Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum." - Alvaro de Campos, Fernando Pessoa.

Sonhos cruzam a porta do consultório, notícias que se transformam em lágrimas em atestado de final de sonhos. Como costurar os sonhos perdidos, queimados, atrapalhados, mudados?

Eis que a Suzana e a Ledeni, artesãs da Barra que já tinham planejado fazer livros de tecido com os extensionistas mudam os planos e decidem que vão nos ensinar a fazer um "filtro dos sonhos". Vão costurar os nossos sonhos. E fazer um bem grandão para colocar todos os sonhos ali e pendurar na faculdade de medicina. Todos trabalham, coletamos cipó, a Leda tem um ponto diferente da Suzi, cada uma costura sonhos à sua maneira. Em Terra Sonâmbula de Mia Couto o "sonho é o olho da vida."

Desenhamos no cipó os sonhos costurados com as mãos carinhosas da Suzi e da Leda "voltando um ponto" ou "ajustando uma distância". Elas não descansam até que todos tenham sua teia de sonhos e dizem: "ninguém pode ficar sem".

Costuramos sonhos, recortamos, queimamos, renascemos, re-escrevemos, até resonhamos. Uma educação popular sonhada, costurada, emendada, de aproximação. E vivemos em terras mágicas de repensar o próximo, se aproximar do outro, aprendermos a cuidar, como diz Julio, de seres extraordinários.

Costurando sonhos
Abraços que pousam,
Mayara Floss

22/10/16

Comentários

As mais vistas