UM PÃOZINHO, UMA PEDRINHA



Maria Amélia Mano

para Ariane e Mayara, que me fizeram matutar...


            Do cuidar de quem cuida. Um conceito, uma discussão, uma mesa em congresso, um protocolo, quem sabe. Uma reunião de equipe a cada dois meses com alongamentos, algumas brincadeiras para divertir e tornar leve. Amigo secreto no natal. Uma palestra aqui e ali. Textos e artigos a serem lidos. Pessoal da saúde do trabalhador se dispõe, faz capacitações. Psicólogas fazendo grupos na equipe. Tantos jeitos de pensar e poucos jeitos de alcançar, tocar o coração. Porque, assim como para os que cuidamos, o sofrimento foge do imaginado, do esperado, da tabela, do fluxograma, do “RH”...

            A vigilante, Nara, é contratada para proteger o patrimônio. Nara está na porta de entrada da unidade, observando os movimentos. Diz que escuta tudo, sente tudo. Fica na frente, recebe as pessoas. Um dia, me procura. Está brigando em casa, quebrando as coisas “que nem na novela”. Diz que falta o sono. As noites estão longas. Diz que se irrita e atira objetos no chão, “pra quebrar”. “Alivia”, confessa. Fala das fofocas que não gosta de ouvir, dos choros dos pequenos e das dores dos mais velhos, das queixas que não entende, das demandas que escuta, das esperas.

            Nara é mãe e é filha. Mora na periferia. Um dia viu uma mulher entrar na unidade nervosa com um vidro contendo um mosquito achado em casa e que identificava como sendo da dengue. A profissional de saúde que consultou fez pouco caso e até riu da preocupação. Nara procurou na internet do celular, a foto do dito mosquito da dengue e mostrou para a mulher. Disse que ficou feliz de ajudar e me pergunta se fez bem. Nara foi cuidadora. Nara se sente responsável por algo além do patrimônio material. E por isso, às vezes, sofre como todos os que se afetam pelo outro, com o outro.

            Como Nara, a menina que limpa os corredores e as salas se ressente com as histórias que escuta de passagem. A auxiliar administrativa ouve todas as queixas e pedidos. Diferente das Agentes Comunitárias de Saúde, elas não foram treinadas para ouvir, entender ou responder por dores, tampouco por ansiedades e tristezas. As pessoas brigam, as pessoas choram, as pessoas fazem pedidos impossíveis e perguntas improváveis.  Nara e as outras profissionais conversam, nos pequenos momentos de encontro e troca, sem participar das escalas de profissionais de saúde, de profissionais que sofrem.

            Cedo da manhã, saio de casa. Pego dois ônibus e, antes de chegar na Unidade de Saúde, passo na padaria mais próxima, compro pão fresquinho e requeijão light porque Nara está sempre de dieta. Chego com o costumeiro “bom dia!” e convido para o café: “pão quentinho!”. Logo, todas estão na mesa conversando, rindo. É a hora do “pãozinho da doutora”, diz a menina da limpeza. Mais que isso, é a hora de poder saber um pouco delas, saber dos corredores, dos bastidores, de responder perguntas, de fazer outras tantas, de tentar entender, de poder escutar. É hora de poder falar também, antes do dia efetivamente começar...

            Mas, quero voltar, Nara me pede para conversar... Desabafa. Ela pede mas não quero dar remédio. Falo, então, das energias que entram e saem com as pessoas que sofrem. Energias que pesam, que adoecem e nos adoecem. Explico que ela está na porta, é quem “guarda”, tudo passa por ela... Conversamos e prometo uma pedrinha que protege e pode absorver energias ruins. Mostro que também uso uma perto do computador, na minha sala. São pedrinhas que eu peguei em uma mina de ametista com amigos. Estamos juntas nesse ofício diário de perceber a dor. Somos parceiras.

            E, um dia, voltamos ao assunto: do cuidar de quem cuida. Voltam os conceitos, voltam as mesas e congressos, as reuniões com os alongamentos, as dinâmicas de grupo, os desabafos em espaços reservados. Está tudo certo e é tudo necessário. Mas só consigo pensar em quem está fora do que chamamos profissional de saúde. Aquele que não é contemplado pelas ações institucionais de “humanização” e cuidado. Aquele que está limpando o corredor, que está guardando a entrada, que está marcando os pacientes na agenda.

            Ainda, na verdade, do cuidar de quem cuida, mais do que a tarefa necessária da escuta sensível, penso na pedrinha que presenteio para Nara e ela, feliz, fotografa e posta na rede social: “Amei minha pedra. Vai me trazer boas energias e afastar toda negatividade. Obrigada”. Porque cuidado bom para quem cuida é o que se reconhece nas mais diversas formas e diferentes lugares, é o que se partilha, é o que não se planeja, é o que se vive no cotidiano, na hora em que o dia começa no pãozinho quente da manhã.




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