AS TEMPESTADES


Maria Amélia Mano

                Um dia um tio querido me disse que amava as tempestades, que quando elas chegavam, ele tinha vontade de ir para o portão de casa e ficar parado, assistindo. Gibran também gostava de tempestades. Eu adoro. Os clarões no céu, os ruídos, os raios e trovões, o barulho da chuva, até as ameaças. Acho bonito até os nomes de “todos os que estão junto”: tormenta, vendaval, ventania. Mas apesar de admirar a fúria, é certo que não gosto do que a tempestade faz, do que produz, do que assusta, do que destrói, do que faz sofrer.

                Dona Laura me chega entre lágrimas: “hoje acordei com saudade...”. Lembro de um texto que gosto que era um pouco o relato de Dona Laura. Várias queixas assim, pedidas, sensações, que fico procurando alívio entre as mãos vazias. Meu olhar é que tem a pretensão de cuidar, assim como meu silêncio. E sempre peço inspiração para a palavra certa. “Tenho tremura por dentro”. Sim, Dona Laura, saudade dá tremura. “Não consigo mais fingir”. É, Dona Laura, fingir aumenta a tremura...

                Esse foi ano que começou e findou por tempestade. Em janeiro, fugi dela. No ônibus, o balanço assustava a todos e eu me encantava batendo fotos das janelas. Em dezembro, fui encontrá-la na praia. Mãe insone, com medo. Eu sonhando estranhezas e curtindo o barulho do vento furioso. Nos dias seguintes, tanto em janeiro, quanto em dezembro, os estragos nas estradas, nas casas, a ausência de luz, a morte de árvores lindas. Esse último feito das tempestades me comove, assim como a falta de abrigo.

                Dona Laura perdeu um filho, é tempo de festas de fim de ano e tempo de lembrar dos que não estão. Fala da vida depois da perda, fala das outras perdas. Às vezes quer dormir e encontrar o filho em sonho. Às vezes sente medo de dormir e encontrar o filho em sonho. Não sabe o que pedir, o que quer. Não vai mais fazer festa na rua para as crianças. Quer ajuda, mas não quer remédio. Quer ser quem é. Quer poder trabalhar. Estou ali para acolher e abraçar, sem remédio pra saudade. “A senhora me dá confiança”, diz ela, ao final.

                É bonito, como médica, alguém ter tanta confiança para dizer que a dor é de saudade. Saudade que não tem paradeiro, que não tem controle nem remédio. Que nem tempestade, sem paradeiro, sem controle, sem remédio. Por isso acho bonita. Porque parece o tremor de Dona Laura por dentro, só que por fora. Tremura de mundo. Dor de natureza. E dor assim, tão íntegra, tão verdadeira, tão digna, dá medo, como toda dor, mas dá beleza, como toda força, como toda fragilidade, como toda água que cai do céu, como toda água que cai dos olhos.


Imagem: série de fotos tiradas de celular, dentro do ônibus, na vigência do início da tempestade de janeiro de 2016, Porto Alegre.

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