MULHERES, MURALHAS, MILHARES


Maria Amélia Mano

            Mulheres, muralhas, milhares. Marina, pequenina. Vinte anos, e quase tudo que queria, uma casinha e a moto para “voar” por aí. E, ainda, o orgulho de ajudar os pais pobres. Tudo conseguido por faxina, horas extra, sábados. Sempre disponível. Sempre sem queixas. Sem queixas nem quando, um dia, voltando para casa, de noite, na muralha da Infraero, desconhecido lhe tapa a boca no meio do caminho. Tudo tão rápido. Não quis contar. Não queria lembrar. Assim, quem sabe, tudo será "como antes".

            Mas, sem perceber, nada foi como antes. Não conseguiu mais sair para trabalhar. Não conseguiu mais ajudar os pais, pagar as contas. Não conseguiu mais ficar só. Pais necessitados, sem entender. Voltou a viver com eles. Não viu mais sentido em ter o que tinha e começou a vender as coisas, "atirar tudo pela janela". Por pouco mais ou nada. Foi a casinha, foram as coisas caprichadas compradas a prazo e pagas em dia. Foi a moto que gostava de voar. Foi o sono leve e o riso solto.

            Passou o tempo e o corpo que conhecia também mudava. E foi aí que se convenceu: nada mais seria o mesmo. Nunca mais. E foi a primeira vez que se queixou na vida: dor, sonolência, náusea. Náusea sem fim. A vida era só náusea. Depois, ouviu vozes e viu vultos. “Aquilo”, a “coisa” crescia dentro dela e era feito de ódio. Tentou se atirar da escada, tentou ir na frente de um caminhão, tentou, tentou. Tentou viver por sete infinitos meses. E viveu, sobreviveu.

            Até que ao fim do sétimo mês, um dia, veio, sem dor, sem susto. A “coisa veio”, pequena demais para o tanto de cansaço que causou. Marina tem duas irmãs. Uma irmã teve uma menina. Casa de mulheres. Menino é desejo de família, de muito tempo. E Marina pariu alívio, pariu um menino faminto que a mãe de Marina abraçou e deu nome de jogador de futebol. Da exigência de dar o seio e amar. Do amor da avó, Marina se sentiu ferida, traída. Como podiam amar? E só então, falou do desconhecido e da dor.

            Marina quis de novo não viver. Viu homem ruim com capuz preto na janela de casa. Dormiu com a mãe depois de anos. Olhou seus seios e barriga, cicatriz. Quis sumir do mundo. Sentiu culpa de odiar. Pariu “a coisa” sem dor no corpo, mas com dor na alma. Pais entenderam, então. Apoiaram Marina. Com tempo que não se mede, se sentiu livre de novo. Nada mais dentro dela. Sem náusea. Só o esforço de amar. Só o leite jorrando em seio farto, alimento, o melhor alimento. Sentiu orgulho.

            Acaricio o bebê e entendo. Depois das remoções da Vila Dique, próxima ao aeroporto, a Infraero construiu uma imensa muralha separando a pista da área do aeroporto. Uma rede de supermercados desviou as rotas de tráfego. Assim, as pessoas que moram mais no fundo da vila, precisam saltar do ônibus distante e irem caminhando até suas casas. Mulheres atravessando a escuridão da noite. Lembro. Olho para Marina que respeitei silêncio e segredo e que nunca consegui tirar a náusea com dimenidrato.

            Marina quer recomeçar. Trabalhar de faxina que é sempre dinheiro certo. Vai descascar fruta na CEASA, me diz, “pra fazer um dinheirinho e dar festa bonita” para os pais. Porque vai ter natal. Porque um menino nasceu. Porque que ainda quer recuperar a casinha e a moto. A moto que deve voar por cima das muralhas, das milhares de mulheres que ali passam, todas as noites, depois do trabalho árduo. Mulheres silenciosas, invisíveis, transformando ódio em  orgulho e, quem sabe um dia, em amor.





acessado em 08/12/2016 às 18:51

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