Tripulantes da Nave



(dias de Arnildo)
Texturas. Sabores. Belchior como plano de fundo e explicações. Dia de terapia familiar, grupo Balint, meditação e conselho local de saúde. Encontros, pequenas conversas do cuidado no caminho até o carro: “é muita coisa para um dia só, uma residência só”. História de Bukowski na estrada irregular, 50 anos com a mãe, complicações, histórias em pequenos recortes. “Está vendo aquela senhora de cabelos brancos, ela tem 100 anos”. Conversa com o Agente Comunitário de Saúde, e fala sério olhando nos olhos: “Negligência também é violência”. Troca de história, com facilidade,  “A gente não força nada com ninguém, quando a pessoa está disponível estamos disponível também”.  Já conversa de outra história, engasgos, “Não estamos deixando passar”. Renova receitas. Busca prontuário. No caminho das visitas ele explica, esta rua, esta praça, este pedaço aqui, essa história, esse paciente, análises. Conversa de porta malas, carros e custo benefício, universo de porta-luvas.   Ana Carolina no rádio canta “Faço das lembranças um lugar seguro” e conversamos sobre a paciente que é quase parte do mobiliário da casa, ele diz “tudo muito antigo, relógio antigo”.  Essa senhora está sempre de blush, ele ri e explica. Morava na Zona Norte quando tudo ainda era campo, antes das ruas, do movimento.  Chegamos. A cerca tem um parreiral com uvas ainda bem verdes, e a conversa começa sobre o medo da ventania, das telhas, história de quem já quebrou telhas, teve que empurrar os móveis e cuidar para não resvalar nas lajoletas. Finalmente arrumou um canto em que não precisa se molhar, ela diz: “é mais caro aqui, mas pelo menos dá para morar”. Segue explicando e perguntando como as pessoas não veem que “atrapalha a água”, o lixo na rua, eu separo todo o lixo para não fazer mal a ninguém, tenho consciência. “Tenho me ajustado bem ao remédio, é bem docinho é bom de tomar, mas o da noite é amargo tem que por ‘lãã’ em baixo na garganta e engolir”. “Eu me cuido muito: doce, gordura e sal e dou conselho, conselho de velho para velho, sabe?”. E explica que falou para um amigo “não vai levar o dinheiro para o caixão mesmo”. “Tem que aproveitar enquanto a gente está aqui”. “Eu como só um pedacinho do que eu gosto quando estou com vontade, de todo o jeito eu não vou levar nada daqui” (e gesticula). Ela é resoluta, não toma nem guaraná, nem um tiquinho, “tomo é água”, e estufa o peito. Na parede, um calendário Del Prado, um quadrinho de pessoas queridas, toalha de mesa colorida, cortinas brancas de fita azul claro. Um radinho antigo do lado de um abajur. Arnildo só escuta, ri e faz um e outro comentário  O agente explica quando Arnildo vai medir a pressão “fica só um estante sem falar por favor”  ela sorri com uma toca de flores na cabeça. Ela afirma em tom de pergunta: “Tá boa a pressão?” Arnildo diz que sim ela diz “já estou agitando desde cedo, acordo às 6:30 da manhã, fico agitando os nervos e a juntas. Desde os quinze anos eu não tenho parado” e pergunta se pode ouvir o coração, escuta e ela olha quieta. Quando termina pergunta “como está o coração?”, Arnildo diz: “tá bom, está batendo”, os dois riem. Perguntam o número do prontuário, ela diz: “Meus papéis eu cuido muito, não quero ter aquela aceleradinha básica no coração”. Tem terços em todos os cantos da casa, é convidada para reuinão de planejamento do posto no sábado seguinte. “Eu vou, nem que seja um pouquinho”. Nos despedimos, abraços e amorosidade. Nem saímos do quintal já tem outra conversa da janela mesmo, dessas coisas bonitas de se ver, quase uma moldura de tijolo. Cadastramento de família, nova, conversa de ombros, fisioterapia, e cuidado. O senhor diz: “existe um diferencial, e esse diferencial são os profissionais, nós usamos o posto faz um tempo longo e trocam os médicos residentes, né? E a qualidade não cai, permanece igual ou até melhora”. Também leva nós visitarmos a mãe para ver como ela está, ver do dentista e para “abrigar nós do vento frio”.  Ela entra devagar, com chinelas e meia azul escura, calça de pijamas laranja. Ela diz “eu sou feliz com meus anos de vida”. Fala de dor nas costas mas emenda “sei que é a idade, espero, rezo para Deus e daqui a pouco passa, eu sou muito rezadeira”. Explica que não sai de dentro de casa porque na rua tem muitas pedrinhas, “então fico sempre aqui na janela, olhando a rua, a criançada”. Conta dos quadros de lã que fazia à noite a luz de uma lâmpada com a irmã para conversar. Convidam para a reunião de planejamento o senhor diz “eu vou , nem que seja para te prestigiar vocês, o trabalho de vocês”. Na próxima casa, um pinheirinho branco de natal decorando o canto, uma boneca sentada em uma cadeirinha de plástico, dificuldade para caminhar e bom humor. Conta de quando operou o joelho e quebrou a fíbula em um descuidado, saiu de uma cirurgia e entrou em outra e perguntou para o médico “vai colocar cimento no osso para colar”? Conta do filho que viu até o Jô de tão tarde que está indo dormir e da nova mania de cantar. “Quem canta os males espanta”. Ele pergunta “o que a senhora está entendendo disso tudo” ela diz: “Eu tenho que ficar firme né, as vezes eu dou uns palpites”. “É tudo umas coisas esquisitas né? Você viu ele todo empipocado”. Arnildo concorda e escuta. Ela conversa com a agente que é quase tão íntima da casa quanto ela, pede para pegar a caixa cor-de-rosa dos remédios que a neta pintou para ela.  Ela pergunta se o Arnildo trouxe o aparelho de pressão, e já vai contando que deu bronca nele em uma outra consulta  e disse “o que você está pensando, tem que levar o aparelho de pressão”. O tic-tac do alarme e o batimento do ponteiro da pressão. Dúvidas. Ele diz: “ a nossa história forma o que a gente é hoje, se não for assim, não é a gente”. “Cada dia vai surgindo uma dificuldade e já vamos contornando”. No final ela diz: “eu quero uma boneca de natal” e pergunta se vamos voltar antes do final do ano. Voltamos para a nave e a senhora de 100 anos continua sentada na sala de espera, ele diz resoluto: “precisamos melhorar o acesso”. Almoço, pesquisa, metodologias, planos. Aula sobre cefaleias, “eu lembro da aula do Santos”, aula que se alonga. Temos uma discussão sobre discutir sobre pacientes. E a Agenda está cheia, um pouco atrasados da aula que atrasou. Primeira paciente disse que sente uma febre interna na perna, primeira consulta, área errada. O relógio bate acelerado. Depois conversa sobre dar a volta por cima e recuperar a falta de vontade. Caso de filme e marcação de horários extras no horário de pesquisa. O paciente diz: “acordo com medo de enfrentar o dia (...) A gente pensa: o que é a vida”. Depois estava  tudo indo bem até que “uma pessoa tão nova, cheia de sonhos. Perdi minha mãe, meu pai, minha sobrinha e agora ela”. Outro paciente quer emagrecer e a outra fala de buracos. Arnildo explica sobre a sala escura e com o som de um cachorro rosnando, fala que quando acende a luz a pessoa vê que o cachorro está amarrado e nunca alcançaria. Falam sobre o medo. Medo de respirar. A paciente fala: “que pena que você vai tirar férias, mas você deve estar cansado também”. Tarefas, e sobre não dizer nada e fazer pensar. No final do dia, vejo Arnildo carregando o O2 da paciente devagar no corredor, com calma enquanto ecoam o barulho do tamanco da paciente.  

Abraços que pousam,
Mayara Floss

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