UMA CAIXA DE DRAMIN E OUTRA DE OMEPRAZOL

Ernande Valentin do Prado

Para Roberta, companheira de sonhos e indignações.

- Já tem um tempo que te vejo aí, todo fim de semana com a mão estendida ao sol, na direção do mar. Por que faz isso?
- A liberdade é a coisa mais incrível que existe... saúdo o sol sempre que posso porque não sei até quando vou ficar livre.
- Por que, tá fugindo da polícia?
- Talvez...
- Saudar o sol é sempre bom...

Quando tinha cinco anos meus pais morreram. Fui criado por um Tio: Alfredo. O homem mais justo que já conheci.
Na verdade meus pais não morreram não, foram assassinados! Eram apoiadores de um grupo de trabalhadores sem terra e ocuparam uma fazenda improdutiva. Uma usina de álcool e açúcar que havia falido e o usineiro não pagava seus empregados há mais de seis meses. Tinha muita gente passando forme, sem poder comprar fiado nos mercados da região, vivendo na penúria e na falta de esperança.
O usineiro nem estava no Brasil, mas com um telefonema mandou os jagunços atirar em todo mundo. Naquela noite perdi meus pais, amigos e mudei-me de cidade, deixei para traz tudo que conhecia até então.
Fui morar com tio Alfredo, único irmão de minha mãe, meu último parente vivo neste mundo. Ele era professor de história em um colégio na periferia.
A gente procura no passado entender o futuro, dizia ele.
Tio Alfredo participou do Congresso da UNE, em 1964 e foi capturado pelo exército e torturado. Contou-me que no dia em que fora preso havia uma garoa fria, muito desconfortável para um jovem do interior do nordeste. Com frio, quando os mais de duzentos soldados invadiram, ainda estava na barraca, embrulhado nos cobertores. Chegaram dando rajadas de metralhadoras para o ar. As pessoas ficaram assustadas, correriam sem direção, se atropelava, caiam, levantavam, se feriam. Muitos estudantes renderam-se na hora, mas alguns fugiram em direção à mata, entre eles Tio Alfredo, completamente desorientado, sem entender o que estava acontecendo. Foi, junto com outros, torturados no local e depois na detenção militar, onde passou mais de 20 dias. Os soldados procuravam pelos líderes dos estudantes, pelas conexões entre eles e a guerrilha que se formava nas áreas rurais. Tio Alfredo não sabia nada, havia partido do interior da Paraíba para participando de um congresso estudantil, só isso. Eles gritavam, esmurravam, deixaram-no no pau de arara para que contasse quem era e onde estavam os lideres, quem eram as conexões, quais grupos de guerrilha lhes davam treinamento. 
- No primeiro dia de detenção tiraram a minha roupa e me obrigaram a subir em duas latas. Conectaram fios ao meu corpo e me jogaram água com sal. Enquanto me davam choques, o coronel me batia com um cipó e gritava me pedindo informações .
Contou Tio Alfredo. E essa não era a cicatriz maior que ele tinha, na mesma reunião ainda disse, e isso define muito meu tio, que ver outras pessoas sendo brutalizados, tendo sua carne e sua moral dilaceradas, humilhadas, estupradas, dizimadas em sua dignidade, lhe doía ainda mais do que torturado fisicamente. Tio Alfredo, desde que me lembro, sempre foi mais preocupado com os outros do que com si mesmo.
A morte da irmã, nas mãos de jagunços, causou-lhe uma ferida incurável. Sentia-se de algum modo culpado por isso.
Geralmente Tio Alfredo era caladão, não era de se lamentar, reclamar da vida, maldizer os adversários, só falava quando bebia. Nestas vezes chorava, falava dos companheiros que perdeu, das amizades desfeitas na tortura, na desconfiança de uns com os outros, do desvirtuamento dos movimentos sociais e populares, da morte da irmã e do cunhado nas mãos de jagunços sanguinários.
Mas ele quase nunca bebia, por isso sei pouco de seu passado, de sua militância no movimento estudantil, do porquê sentia-se culpado pela morte de meus pais. Sei mais do que vivi com ele durante 17 anos, dos cinco aos 22 anos. 
Tio Alfredo foi um grande pai, apesar de ser apenas meu tio, irmão de minha mãe. Foi um pai presente, levava-me para escola, aulas de esporte, parques, cinemas, no posto de saúde para tomar as vacinas. Ensinou-me a andar de bicicleta, correndo atrás para amparar-me em caso de queda, que só aconteceu uma vez, depois subi na bicicleta e sai pedalando. Ainda lembro dele em pé, de boca aberta olhando minha facilidade em manter-me sobre as duas rodas.
Na infância ensinou-me a nadar nos rios da redondeza, quando ainda não eram completamente poluídos pelas fábricas e os esgotos das casas, cada vez mais numerosas nas margens; a pescar e fritar o peixe, fazer arroz, feijão. Fazíamos acampamentos, viagens para cidades históricas, levava-me em museus e centros culturais. Ensinou-me a fazer e soltar pipa, jogar pião, futebol. À tarde, sentado em frente de nossa casa: ele fingia que lia, sentado em uma cadeira na calçada, enquanto eu brincava com outras crianças, andava de bicicleta, gritava. 21 horas, em ponto, parava tudo que estava fazendo e me levava para cama, antes de dormir lia clássicos da literatura infantil.
Tio Alfredo levantava cedo, juntos íamos para escola, eu para minha, ele para dele, até que passei a estudar nas mesmas escolas em que ele lecionava. À noite e nos fins de semana, se tinha que ir à uma reunião do partido, dos coletivos de movimentos populares, dos quais participava, leva-me com ele. Eu brincava com outras crianças, enquanto ele discutia com os companheiros. Se não tivesse crianças, eu desenhava, sentava do seu lado, escutava palavras novas: socialismo, solidariedade, companheirismo, sindicato, Movimento Sem Terra, corrupção, amorosidade, Educação Popular, Karl Marx, Paulo Freire.
Um dia levou-me em uma igreja católica, na paróquia de um padre amigo.
Ele é da Teologia da Libertação, disse.
Eu quis saber o que era teologia da libertação e Tio Alfredo disso que era um jeito de pensar os ensinamentos cristãos junto com justiça social. Mas que eu não deveria me preocupe com isso, só precisa ver se gostava e me sentia bem ali.
Ter fé é importante, seus pais viveram e morreram na fé em Deus, fé de que um dia a justiça iria prevalecer. Eu não acredito muito, mas quero que aprenda por si mesmo, que julgue você mesmo, meu sobrinho. Disse ele com muita simplicidade.
Depois Tio Alfredo levou-me em outras igrejas, sempre onde conhecia algum pastor, um pregador. Conheci terreiros de candomblé, de umbanda. Igrejas pentecostais, centros espíritas, uma sinagoga, uma mesquita e um templo budista.
Ele queria que eu escolhesse uma religião, caso assim eu desejasse.
Na semana em que saí de casa, enquanto arrumava as malas, encontrei em uma gaveta, organizado em pastas por datas, mais de 200 folhas amareladas com desenhos que fazia e lhe dava. Tinha também dezenas de álbuns de fotografias, toda minha infância, adolescência registradas. Fotos que nunca tinha visto.
Tio Alfredo ensinou-me quase tudo que sei. O que fiz de diferente do que ele faria, foi por amor, pela necessidade de protege-lo, foi pensando em chegar no mesmo lugar, tentando corrigir estratégias erradas.  
Revolução? Isso não vai acontecer, o povo não quer o socialismo, quer consumir. Inútil insistir, a natureza do homem é ruim mesmo, o ser humano é um animal insaciável que mata sem motivo, só para privar o outro.
O homem, meu tio, concordando com Thomas Hobbes, já nasce mau, não serve para viver em sociedade, é preguiçoso, acomodado, fica só esperançando se beneficiar. Por isso precisa de um estado autoritário, que lhe imponha regras de condutas. Ele é mau, insociável em seu íntimo e para tornar-se parte de algo, só sendo domado, tendo sua liberdade tirada a força, que é o que merece. Por isso, meu Tio, não adianta lutar por eles, nem com eles, pois vão te trair, te entregar para ser torturado de novo. Homem como o senhor, Tio, com vocação em ser mais, são raros, são exceções a uma regra implacável.
Sei disso, Tio Alfredo não.  Ele acha que o homem nasce bom, o bom selvagem de Rosseau, e que a sociedade o corrompe. Por isso não consegue julgar ninguém, sem justificar, desculpar os detratores, adversários, inimigos declarados. A sociedade os corrompeu? Não creio! O homem, estes homens já nasceram corrompidos, meu tio.
- Eles podem achar que sou o inimigo, mas não são meus inimigos. A vocação do homem é ser mais, meu sobrinho, qualquer coisa diferente é distorção desta vocação. Repetia a fala de Paulo Freire.
Ele tem uma fé inabalável na revolução, na solidariedade, no progresso da humanidade. Fé, aliás, era a única cosia que Tio Alfredo tinha e parecia precisar. Nada acumulava, nem livros, que lia e doava, emprestava sem prazo para devolução. Mas nunca ousei dizer nada, nenhuma crítica, nada, sei que lhe magoaria, que pensaria que errou comigo. Mas não errou, meu Tio, fez tudo certo. Só estou corrigindo seus enganos em meu íntimo, só para mim. Por isso nunca vai saber de verdade o que penso.
Ele é, sempre foi um homem bom, mas não aprendeu nada com a história que viveu, que viveu sua irmã, seus companheiros torturados pelos militares, minha mãe e meu pai, mortos por jagunços a mando de usineiros que nunca foram nem serão punidos. Mortos por esse sonho de mudar o mundo. E para quê? Por essa gente burra que fica sentada em casa esperando tudo de mão beijada e votando em patifes?
Não quero mudar nada por essa gente que assiste a caravana passar sem se mexer, deixe tudo como tá, essa gente que se vire, que sofra as consequências de não se rebelar. Mas nunca falei e nem vou falar nada disso para ele ou perto dele. Meu tio é um homem bom, sempre muito honesto, sincero, indignado com a corrupção que via ao seu redor. Tudo que puder fazer para ajudar-lhe a realizar seu sonho, para ter um pouco de felicidade, vou fazer.
Logo depois do assassinato de meus pais, fui morar com Tio Alfredo, foi numa época em que ele estava muito agitado, com problemas na escola em que era professor. Para as crianças, todos os dias, era servido bolacha de água e sal, mas na despensa havia um frízer cheio de polpa de fruta, no armário tinha arroz, feijão, frutas, legumes, carnes, mas nada disso era servido para os estudantes, apenas para os professores.
- Não dá para todos, por isso apenas os professores têm acesso, dizia o diretor, nas reuniões, onde os pais não entravam.
Alguns funcionários da escola aceitavam esse argumento, inclusive levavam para casa as poupas para fazer sucos para seus filhos. Outros, como Tio Alfredo, ficavam envergonhados, indignados, mas ninguém tinha coragem de fazer nada.
Mas não era só isso, o diretor da escola tinha um esquema de desvio de merenda, junto com uma cooperativa, vereadores e funcionários da prefeitura. Tio Alfredo fotografou a dispensa, os professores levando as poupas para casa, as bolachas servidas aos estudantes e denunciou o esquema em rede nacional. Perdeu amigos, foi processado pelo diretor, que era indicação do prefeito e apadrinhado por vereadores. Recebeu ameaças de morte, levou um tiro, que pegou de raspão, deu entrevista para jornais, rádios e tv. Ficou famoso por um tempo e ganhou admiradores, leais apoiadores e foi candidatado a vereador. Elegeu-se com o maior número de votos, para desespero e ódio das tradicionais famílias que dominavam a câmara de vereadores e a cidade.
Sua campanha foi completamente diferente do que se fazia. Não gastou dinheiro seu, até porque não tinha. Os apoiadores formados por professores, zeladores da escola, pais de alunos da associação de pais e mestre, gente do sindicato, de ONG de direitos humanos, de minorias, de movimentos sociais e estudantes, muitos estudantes, fizeram sua campanha. Todos os dias, munidos de santinhos, jornal, adesivo, andavam de casa em casa pedindo votos para Tio Alfredo. Nada cobravam por isso e ainda pagavam os materiais. Uma vez Tio Alfredo brigou na rua com um homem que lhe pediu para pagar uma cerveja em troca do voto. Ele tentou lhe explicar que isso era contra lei eleitoral, que o voto era muito importante para ser trocado assim, que até lhe pagaria uma cerveja, mas não durante as eleições.
O eleitor, revoltado, disse que políticos são todos iguais, que antes das eleições prometiam tudo, mas sumiam depois.
- Quero uma cerveja, se não pagar não voto. E lá em casa são seis votos. Tenho certeza que depois das eleições não vou ganhar mais nada do senhor, nem atenção, perigoso lhe perguntar a hora e não falar, disse o eleitor.
Tio Alfredo, como sempre, não se conformava com aquela conversa, continuou insistindo com o eleitor, cada vez mais exaltado. Teve que ser retirado pelos apoiadores, pois do jeito que a conversa ia, iriam acabar saído no Braço.
Depois de eleito, Tio Alfredo denunciou um esquema do qual fazia parte quase todos os vereadores da cidade, inclusive os outros dois de seu partido. O esquema era muito simples: os vereadores desviavam os recursos da verba de gabinete, que deveriam ser usados com gastos de correio, compra de combustível, impressão e compra de material de escritório. Cinco vereadores da base do prefeito foram condenados a quatro anos de prisão, mas em regime aberto, o que causou situações complicada para Tio Alfredo, que foi perseguido por eles, seus familiares e cabos eleitorais. 
A fraude foi denunciada à Polícia Federal: os vereadores tinham um acordo com o dono de uma franquia dos correios, que também tinha um contrato para fornecer material de papelaria para a câmara de vereadores, embora não tivesse uma empresa neste ramo. Ele repassava recibos falsos de postagem de correspondências dos vereadores e de compra de materiais. Os recibos eram apresentados para a contabilidade da Câmara e receber a verba indenizatória de gabinete, mas na prática esses materiais não eram fornecidos e nem as correspondências enviadas.
O dono da franquia foi condenado à sete anos, dois meses e 13 dias de prisão em regime semiaberto pelos crimes de furto, abuso de confiança, peculato e formação de quadrilha, por ser o cabeça do esquema. Todos os envolvidos alegaram inocência e atacaram Tio Alfredo. Alegavam que essas acusações faziam parte de uma manobra política eleitoreira.
Um vereador foi condenado a quatro anos, seis meses e três dias de reclusão em regime semiaberto, outros quatro foram condenados a três anos e quatro meses em regime aberto, convertida em prestação de serviços. Outros quatro vereadores foram inocentados, apesar das provas serem contundentes.
Ninguém realmente foi preso e nem mesmo os condenados perderam seus mandatos, presentinho que receberam do presidente da câmara de vereadores, que era na verdade o líder de todo esquema, mas que não foi denunciado e nem investigado em nenhum momento do processo.
O vereador, presidente da câmara, era filho de um conhecido coronel da Polícia militar, aposentado, mas ainda truculento, crítico dos direitos humanos, homofóbico, preconceituoso, declaradamente defensor da volta do regime militar:
- O erro dos militares foi ter matado menos de 32 mil. Eu mataria todos, todos os comunistas que ameaçam a família, a religião, que invadem nossas propriedades e fazem de nosso amado Brasil uma bandalheira. E ainda por cima defendem bichas, essa escória da humanidade.
Dizem que certa vez, na adolescência, o coronel quebrou o braço do filho, durante uma surra muito grande. Isso por que ele se fantasiou de mulher no carnaval. Também bateu na esposa, porque, segundo ele, essa pouca vergonha era culpa dela. 
Além de presidente da câmara de vereadores, ele era dono de um hospital particular na cidade vizinha, no qual os médicos davam plantões, mas recebiam como se estivessem no pronto socorro municipal. Também tinha um esquema em que os médicos batiam cartão, mas não trabalhavam. O que ganhavam era divido com ele. Ninguém na cidade fazia negócios sem que ele recebesse comissão. Além disso, corria boato de que batia na esposa e que, no trote da faculdade de medicina, que fez em São Paulo, matou um estudante. 
Tio Alfredo, por opção, nunca foi casado, por isso, por apoiar o movimento de gays e lesbicas,  por maldade dos adversários, espalharam na cidade que ele era homossexual. O tio nunca se importou com isso, mas as ofensas públicas foram crescendo. Eu me aborrecia, principalmente com o fato dele não se importar, não se ofender, não reagir as ofensas.
Certa vez, na feira pública, passamos pelo presidente da câmara, que aproveitou-se para ofendeu Tio Alfredo, apontou-lhe o dedo:
- Seu gayzinho de merda, disse ele, acha que vai me denunciar e ficar por isso mesmo? Acha que é mais honesto que eu? Pois eu vou te dar um tiro na cara, seu veado. E não tem ninguém nesse mundo para me condenar. O povo prefere um ladrão, coisa que não sou, é claro, à uma queima-rosca. 
Tio Alfredo não reagiu. Mais tarde, apenas disse, repetindo Paulo Freire:
- Apenas os oprimidos podem libertar os opressores, meu sobrinho. Eu poderia reagir, mas ia ser só um bate-boca, não ia servir para nada.
- Verdade, meu tio. Eu disse, fingindo concordar. Esse senhor foi embrutecido pela vida, provavelmente pela criação que teve. Ser filho do coronel não deve ter sido fácil.
- Mas não vou ficar sem fazer nada, vou denunciá-lo na sessão da câmara, mesmo entendendo que essa brutalidade é fruto de sua criação, da sociedade que temos.
- Meu tio, agradeço todo dia por ter o senhor em minha vida, por ter sido criado por uma pessoa boa e justa.
Mas de verdade, eu pensei: isso não pode ficar assim.
Na seguinte sessão da câmara de vereadores, Tio Alfredo ocupou a tribuna para denunciar o acontecido e fez novas acusações sobre o desvio de verbas da educação e do esquema de plantões médico no pronto socorro municipal.
O presidente da câmara, de forma autoritária, cortou a fala de Tio Alfredo, alegou que o regimento é decido segundo os interesses do povo e que não poderia permitir ser difamado por gay mentiroso.
- O excelentíssimo vereador é um queima-rosca e faz acusações levianas. Aliás, fofoca é coisa de mulher e de veados, como o senhor e toda sua raça.
 Enquanto falava, em nenhum momento deixou de sorrir de modo desdenhoso e desprezível.
No estacionamento, no final da sessão, o presidente da câmara, seu pai, embora aposentado, mas armado e fardado, cercaram Tio Alfredo e lhe ameaçaram de morte:
- O bicha velha, você não perde por esperar. Acha que vai me afronta assim e ficar por isso mesmo? Já te disso, seu queima-rasca, essa cidade é nossa. O primeiro tiro a gente errou, mas o próximo vai ser na cabeça, pode ficar esperando... 
O vereador deu um soco em Tio Alfredo, enquanto seu pai, com a arma na mão, garantia que não haveria reação. Ao se afastar, o coronel, olhou-me nos olhos e disse, sorrindo:
- Quer ter tio mais tempo ou quer ver ele ter o mesmo destino de seus pais comunistas?
Não respondi, não me mexi, não reagi. Fiquei parado, calado, alimentando secretamente meu ódio inconfessável.
- Quer seu tio bichona vivo, faça ele calar a boca, gracinha! Repetiu o presidente da câmara.
O coronel levantou a arma no ar, de modo ameaçador, sem medo que lhe vissem. Saiu empurrando-me.
- Tão avisados: bichona e bichinha, essa arma tá carregada para dar cabo de vocês.
No hospital, onde ele foi para ser atendido, o médico de plantão disse que não lhe daria atestado, que não poderia lhe ajudar a constituir provas contra o presidente da câmara, pois se isso fizesse, seria demitido ou coisa pior.  
Na delegacia, onde fomos registrar queixa por agressão e ameaça de morte, o delegado disse que não valia a pena perder tempo com queixas infundadas.
- O que o senhor está me contando é absurdo, eu conheço o coronel e seu filho, sei que não fariam isso. O senhor só quer criar um fato político.
- E esse olho roxo, delegado?
- O mais certo é que o senhor deve ter apanhado do namorado.
Li em algum lugar o seguinte: Indignar-se desencadeia uma série de alterações físicas e emocionais, causa aumento da pressão arterial, do ritmo cardíaco. O comportamento converte-se em motor do pensamento e da ação, quase sempre imediata, impulsiva, violenta, física ou verbalmente. Mas eu guardei minha indignação contra esse homem desonesto, não esse homem! Esses homens que me dão razão com sua grosseria, mesquinhez, sordidez desmedida. O homem, meu tio, nasce mau, continua mau, vai morrer mau e deve ir para o inferno. Entenda, o senhor está errado em achar que essas criaturas têm vocação por ser mais.
Ofenderam Tio Alfredo na minha frente, na frente de outras pessoas, depois o sistema institucional negou apoio, a imprensa noticiou como se fosse uma simples discussão política. Ainda juraram me matar, matar meu Tio, lembram meus pais assassinados, como se fosse uma lição que devêssemos ter aprendido.
Sinceramente: leis, justiça, civilização, esperança de dias melhores, é besteira. A única lei que funciona é   a Lei do talião: olho por olho, dente por dente. Aqui se faz aqui se paga. Até porque é uma punição mais simples, certa e justa, principalmente num país corrupto como o Brasil, onde quase sempre só se pune o fraco, o sem dinheiro. Não adianta esperar a justiça que vem de cima, do delegado, do judiciário, formado por gente que acredita em privilégios, que uns têm mais direito do que outros, nem a justiça de Deus chega nessa terra.
A lei do talião é uma das mais antigas que se tem notícia na história da humanidade, escrita é a mais antiga sem dúvida. Também chamada de retaliação, foi uma das primeiras tentativas de normatizar o desejo de justiça, a vingança, que ameaçava a organização social vigente naquela época. Pelos seus princípios a lei deveria impedir as pessoas de fazer justiça pelas próprias mãos de forma desproporcional. Por isso se dizia: "olho por olho, dente por dente". O criminoso deveria ser punido igual ao dano causado.
Na antiguidade existiram outras leis, como o código jurídico anglo-saxônico, que substituiu o olho por olho pelo pagamento de uma taxa. A punição era segundo sua classe, mas somos todos iguais, entre os homens e até perante Deus, se ele existir, por isso a punição deve ser igual, tanto faz a quantidade de dinheiro e prestigio do ofensor.
Como medir o valor da vida de uma pessoa e por um preço?
O Código de Hammurabi diz que se uma pessoa foi ferida, então a vítima ou alguém próximo a ela tem direito de se vingar. A vingança, por esse código, diferente da lei do Talião, poderia ser muito pior do que o crime, talvez até mesmo a morte.
Na Babilônia impunham um limite para as ações de vingança, que não poderia ser pior do que o crime sofrido.
Acho que o olho por olho e dente por dente, que alguns acham uma lei barbara, mais civilizada do que o nosso judiciário. “Por ano, são mais de 50 mil mortes no país. E os casos em que os assassinos são punidos não chegam sequer a 8%” . No Brasil existem quase 400 mil presos, pouquíssimos são por crimes realmente de vulto, como corrupção, desvio de dinheiro, assassinatos de sem terra, caixa dois. Um preso comum custa mais ou menos mil reais por mês ao estado. Pode pagar por seu crime até o dobro do tempo, sendo que sua condenação, se for pobre, preto, puta, já foi desproporcional ao crime.
Barbaridade é o sistema prisional que desumaniza e tortura os condenados. O xilindró é para ladrão de galinha, até o Ministério da Justiça reconhece que ao menos 66 mil presos poderiam cumprir penas alternativas, porque cometeram crimes irrelevantes, como roubar xampu ou frango congelado. Quanto a quem tem dinheiro, dificilmente é denunciado, investigado e julgado, condenação é quase inimaginável.
Os ofendidos ficam com o nó na garganta, com a humilhação de procurar as “ditas autoridades, os juízes, os promotores” e não ver a justiça ser feita.  Um crime pode passar anos, décadas sem julgamento e neste tempo a família fica com a sensação de abandono, de estar sozinho no mundo, de não ter ninguém por si e vai perdendo a credibilidade que tem nos homens, nas autoridades, cada dia mais. 
É pela lei do Talião que resolvi julgar o presidente da câmara e o coronel, seu truculento pai.
Noventa dias contados se passaram desde essas agressões. O hematoma no rosto de Tio Alfredo desapareceu, as provas de desvio de verba contra o excelentíssimo presidente da câmara foram queimadas na sala de arquivos do fórum. Contra Tio Alfredo foi aberto um processo disciplinar pedindo cassação de seu mandato de vereador. Mas aqui se faz e aqui se paga.
Um dia a cidade acordou com a seguinte manchete:
“Presidente da câmara de vereadores é assassinado em casa de swing com um tiro no anus”. Testemunhas ouvidas dizem que o vereador, a amante e o suposto assassino, um conhecido garoto de programa bissexual, foram para o quarto reservado por volta das duas da manhã. Meia hora depois ouviu-se o disparo. O presidente da câmara chegou a ser socorrido e levado para o pronto socorro municipal, mas morreu de hemorragia enquanto esperava a chegado do médico de plantão, que, embora estivesse oficialmente de plantão e com a presença registrada no hospital, naquela hora estava em um hospital particular, por ironia do destino, de propriedade do vereador morto, em uma cidade vizinha.
O assassino conseguiu fugir e ainda não foi encontrado pela polícia.
De desgosto, dizem, o coronel teve um derrame que o deixou com sequelas, não falava, não andava, mas tinha enfermeiras que lhe acompanhavam dia e noite. O desgosto dele não era exatamente pela morte do filho, mas pela forma como morreu, supostamente assassinado por um garoto de programa bissexual, com quem já mantinha contato há algum tempo, diziam os jornais, depois de sua morte. 
Matar não é fácil. Nunca imaginei como seria tirar a vida de outra pessoa, nunca tinha pensado, nem sonhei com isso. Mas planejei cada detalhe, fui lá e atirei. Uma semana depois, enquanto esperava a polícia entrar em minha casa e levar-me para cadeia para pagar pelo meu crime, tentei humanizar a vítima, pensar nela como uma pessoa, um pai de família, como tendo uma alma imortal, como um ser humano com vocação a ser mais, como uma vítima de sua criação, mas não consegui: ele mereceu morrer, um corrupto a menos no mundo, um violentador da própria esposa, segundo fofocava-se. Morreu, merecia morrer e foi mais rápido por conta de seus próprios esquemas. Meu mal estar, nada grave, resolvi com uma caixa de dramim e outra de omeprazol, mas não por conta dele. O que me angustiava, tirava meu sono, fazia meu estômago doer, ter náusea, não conseguir comer nada sem vomitar, era imaginar que um dia Tio Alfredo pudesse descobrir o que fiz.
Ele se martirizaria, se questionaria onde teria errado comigo. Seria um desgosto muito grande, que desde sempre investiu todas suas energias para criar em mim um sentimento de honradez, de valor pela vida humana, pela solidariedade com os mais fracos. 
Cada vez que via meu Tio, durante essa primeira semana, não conseguia olhar em seus olhos. Ficava imaginando o quando ele choraria, culparia-se pelo que eu fiz. Essa era a tortura maior. Matar aquele homem horroroso? Disso não me arrependo, mataria de novo, se preciso fosse.
Por isso, depois de algum tempo, quando nem o dramim e o omeprazol faziam mais efeito, resolvi fazer mestrado em Educação, deixar a cidade, deixar de ver meu tio todos os dias e imaginar o que aconteceria com ele, caso o que fiz fosse descoberto.
- Tem um tempo que não vejo meu Tio, pessoa que amo muito, sinto muita falta, mas errei com ele e tenho vergonha disso. Quando estendo minha mão para o sol, em direção ao mar esmeralda da praia de Tambaú, estou tentando desculpar-me.

[Ernande Valentin do Prado publica na Rua Balsa das 10 às 6tas-feiras]

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