Batalhar e admirar [Eymard Vasconcelos]

Foto: Vitor Constantino - UFF





Se pensarmos na vida apenas como uma série exponencial de problemas clamando por nossa constante atenção, estamos caminhando na direção errada.


É preciso ver a vida como algo mais do que batalhar, mais do que uma sequência infinita de resolução de problemas.

Ao invés de ver a vida como incrivelmente problemática, por que não vê-la também como artista? Ela cria e encanta para além de nosso esforço. Assim, precisamos também aprender a reconhecer e acolher o que surge dessa encantadora dinâmica vital, de forma inesperada.

‘Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova. Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava fora. E ataquei as coisas belas que criaste’. Santo Agostinho descreve sua grande reviravolta como uma descoberta da natureza da beleza. Como Dostoievski, ele sentia a beleza como uma salvação pessoal. Mas diante do caos violento de seu tempo, o místico russo disse mais: o mundo será salvo pela beleza.

A beleza é a erupção do todo numa parte. Quebra as regras. É excepcional. Pode acontecer em um poema ou uma peça musical, em um belo rosto ou voz, mas igualmente em um gesto ou uma ação moral que nos surpreende e delicia e nos faz dizer “uau, que bela (e inesperada) atitude”. Ficamos impressionados com a beleza artística porque ela não é fabricada planejadamente, apenas criada por uma força de vitalidade, que não controlamos. Apenas assistimos e colaboramos. Essa criação inesperada é que encanta.

O mais urgente problema que é a falta de percepção. Nossa percepção da beleza na arte, na natureza ou no comportamento humano fica potencializado a partir do momento em que descobrimos, em nós, a vibração dessa vitalidade que pulsa e cria beleza e bondade, mesmo sem nosso esforço ansioso. Aí, nossos olhos passam a ver o que antes era invisível.

A meditação, o silêncio, a contemplação, algumas leituras e a participação em grupos reflexivos limpam as portas da percepção, abrindo-nos a este nível essencial de beleza.







Texto organizado por Eymard a partir de reflexão de Laurence Freeman, da Comunidade Mundial de Meditação Cristã. Ver em http://www.wccm.org.br/

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