HISTÓRIAS ACONTECIDAS NO ONIBUS: O DIREITO AO LUCRO E OS MATADOUROS

Imagens capturadas na internet, 2017.
Ernande Valentin do Prado

Essa aconteceu na linha circular 1500, em João Pessoa. Ela liga tantos lugares da cidade que nem sei por onde começar, então vou ignorar. Peguei na Ruy Carneiro em direção a Universidade Federal da Paraíba.
Estava chovendo e tive dificuldade em chegar até o fundo, com minha mochila cheia de livros. Nas duas últimas cadeiras do lado esquerdo, duas mulheres com camiseta de uma escola técnica conversavam animadamente sobre seus cursos. Falavam dos professores, do custo mensal, das taxas extras para isso e aquilo e aquilo outro, etc. Comentavam das disciplinas, dos professores. Lá pelas tantas uma disse:
- Tem 110 alunos na sala.
A outra respondeu.
- Vixi Maria, como consegue estudar numa sala assim?
- E não é, mulher?
- E como o professor aguenta?
- Nem sei.
- Deveriam dividir a turma.
- Tem gente demais procurando o curso, acho que por que é barato. Mas não precisa dividir a turma, têm muitas despesas, podiam aumentar o tamanho da sala.
Como pode?
110 estudantes na sala e a estudante acha que o necessário é aumentar o tamanho da sala, talvez até para poder aumentar o número de vagas no curso.
A necessidade de lucro, esse mesmo que torna os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, a ponto de 8 famílias no mundo ter a mesma soma de recursos que 50% da humanidade, é coisa tão sagrada no Brasil e no mundo que nem precisa quem lucra defender. O próprio explorado e gerador de lucro defende o direito do outro ter lucro. Cada vez mais verdade o que Marx disse: as ideias dominantes na sociedade são as ideias das classes dominantes. O trabalhador miserável, o desempregado miserável, o remediado miserável, a classe média miserável, afogada no desejo desenfreado de consumir, defende o direito ao lucro que ela não vai ter, mas sonha ser possível um dia ter.
O lucro, na visão desta estudante, parece ser mais importante do que receber um ensino de qualidade. Será que ela percebe o absurdo do que falou e nós percebemos o absurdo em que vivemos? 
Quando uma pessoa aceita numa boa que tenha 110 estudantes em uma mesma sala de aula, está ao mesmo tempo aceitando que não precisa ter um bom ensino, que basta receber o diploma?
Uma escola que coloca numa mesma sala 110 estudantes está assumindo que não tem interesse no ensino, que ele é apenas uma desculpa para fazer dinheiro?
O professor que aceita dar aula uma condição tão absurda, por necessidade, algum dia conseguira deixar de fingir que ensina?
Lembrei, ouvindo essa menina, outro caso. Li dia deste que houve uma reunião interprofissional na Bahia/Sergipe, para protestar contra o ensino a distância (EaD). Fiquei me perguntando: as pessoas que organizaram e participaram de tal reunião estão vivendo no século 21 ou ainda no século 19?
Protestar contra EaD, como se esse fosse o problema é no mínimo um contrassenso histórico. O EaD pode ser tão bom ou tão ruim quanto o ensino presencial e frequentemente, com exceções, é tão ruim quanto o presencial.
A manifestação destes profissionais me pareceu tão ridícula e vazia quanto as manifestações dos panelas-cheias que se beneficiam da corrupção, mas não toleram outros corruptos. Esses professores e seus conselhos de classe querem jogar areia em nossos olhos ou são tão ingênuos quanto a menina do ônibus que acha que aumentando o tamanho da sala de aula o problema estará resolvido?
De qualquer forma vale o que disse Renato Russo: “a ignorância é vizinha da maldade” e diria que uma empresta uma xícara de açúcar para outra, sempre que necessário.


[Ernande Valentin do Prado publica na Rua Balsa das 10 às 6tas-feiras]

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