Duas histórias paralelas de espanto, perplexidade e aprendizado [Julio Wong Un]





Nos anos 90 conheci aqui no Brasil dois mestres, distraídos e lentos. Muito diferentes um do outro mas plenos de utopia, ira santa e cuidado para com os outros.

O Victor Valla, que já não está fisicamente entre nós, e o Marcos Moreira, mestre poeta, sanitarista, tradutor e médico. Mestre de gerações na UFF. E a pessoa que me convenceu a ir lá prestar concurso e virar professor.

Sobre o Valla escreverei em outro momento pois ele merece até um livro - tantas e tantas pessoas que o lembram e o evocam.

Quero aqui relembrar gestos que observei com frequência nesses dois mestres e que tento repetir cotidianamente.

Sempre eu vi um cuidado, um carinho, uma reverência até, do Valla e do Marcos para com os pequenos e os invisíveis... porteiros, taxistas e motoristas, faxineiros, administrativos, seguranças. Buscavam saber quem são, aproximar-se deles, respeitar, aprender.

Muitas vezes o Valla me disse: olhe, escute, cale... aprenda...

E o Marcos sabia detalhes insuspeitos e nomes e caraterísticas de antigos  alunos, já médicos.... até os próprios profissionais se espantavam. 

Por isso quero escrever duas histórias que contei há 4 dias na formatura dos educandos do curso EdpopSUS em Pernambuco. As duas histórias, estão separadas por mais de vinte anos, mas são parecidas no espanto e no encantamento pelo saber/sabedoria popular.

Em 1990 trabalhei nos Andes Peruanos, perto da fronteira com o Equador, na Província de Hualgayoc. Caminhávamos horas pelas montanhas para visitar as comunidades camponesas distantes.

Nesse dia, eu ia me balançando com medo no cavalo que teimava em ir pelas trilhas mais perigosas. Eu, de cidade, apavorado. Eu ia escutando música clássica no meu Walkman (aparelho extinto hoje em dia mas muito charmoso e de bom som) para me distrair do medo e da vertigem. Então um dos camponeses índios me perguntou o que que eu estava escutando. Eu disse: olha, acho que você não vai gostar. Ele pegou sorrindo o meu fone de ouvido. Eu quase cai do cavalo. E começou a escutar.... assobiou.... e me disse: ahhhhhh, o doutor está escutando as bodas de fígaro do Mozart. Gosto. E eu: como é que tu conheces? Ah, ele respondeu, rádio de onda curta. Pega muito bem aqui nas montanhas.

A outra história me aconteceu há menos de 5 dias em Arcoverde, no sertão pernambucano. Formatura e mostra dos educandos do edpopsus do sertão. O fim de festa era, claro, o Côco. Ritmo local maravilhoso que eu já conhecia desde o começo dos anos 2000 quando comecei a ir a Pernambuco e me encantar pela sua riqueza cultural e musical.

No meio do côco todo mundo dançando e pulando e um dos músicos, menino de uns 35 anos se aproxima e me diz: o senhor é budista? Eu, que estava com uma mala tibetana (rosário budista) assenti e perguntei: como você soube? pelo rosário? ele riu e disse: é que eu também sou budista... namasté.... e voltou a tocar adoidado.

Lembrei na hora do Valla, do Marcos Moreira... e juntei as duas histórias. Sou felizardo em ser surpreendido pela maravilha do simples.

E lembrei que o corriqueiro, o simples, o aparentemente repetitivo, pode ser maravilha, invenção, surpresa, sabedoria.... como uma caminhada desde a Alberto Torres até um café na Rua da República que nunca foi a mesma, nunca se repetiu e nunca virará rotina. 

Namasté.







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