FAIXA DE ESPERANÇA [Maria Amelia Mano]


Maria Amélia Mano


Atrasada, aguardo na faixa de segurança a hora de atravessar a rua. Verão nordestino na cidade coberta de asfalto. Velozes, os carros fingem que não me veem, que não há faixa, que precisam parar e me deixar ir. Olho para as janelas cobertas de insulfilm procurando algum olhar gentil, mas os carros estão todos vazios de generosidade e gente. Fico pensando nesse mundo rápido e hostil das pessoas protegidas, escondidas, trancadas em seus mundos-umbigos de metal, borracha, fumaça, pressa e egoísmo. Desesperança.

Então, um velhinho, desses que junta latinha e papelão para a reciclagem, vem no meio dos carros em uma carroça cheia de material. Galope lento. Ao chegar na faixa, puxa as rédeas do cavalo, abaixa a cabeça e movimenta uma das mãos em sinal de consentimento para que eu passe. O velhinho era de tal fineza que o ato parecia aquelas mesuras medievais que faziam rodopiar a mão de um nobre em três voltas em direção à dama. Sorri profundamente agradecida. Ele respondeu com aceno e um imenso sorriso desarmado, quase sem dentes. E o mundo ruim mudou de cor.

Não ouvi mais nenhum barulho. Era o suspiro da alegria sem palavra. Silêncio de pele queimada de sol. Rugas nos olhos de brilhar e deixar passar. Pausa para a ternura no meio do mundo sem alma. Desacelerei o passo. Desativei o modo automático. Queria o tempo sem tempo, lento para que a gratidão simples pudesse ficar mais em mim. Como banho morno demorado em fim de dia cansado. Sensação que queria eterna. Gravada. Impressa. Para não esquecer. Para me proteger do desalento, da irritação, da velocidade, do ego, do insulfilm.


Às vezes é tanto e tão pouco. Conforto, proteção, velocidade, eficiência, bom trabalho e a ausência do olhar. Barulho, impaciência, incompreensão, mesquinhez. Às vezes é tão pouco e é tanto que até transborda. Desconforto, desproteção, precariedade, lentidão de galope, trabalho árduo e o gesto que desperta. A calma, o silêncio, a paciência sem palavras, o olhar que consente, a nobreza das mãos que saem das rédeas para a mesura. O respeito. E aquele sorriso. Ah, aquele sorriso aberto, imenso, cheio de falhas, cheio de sol, cheio de dignidade, cheio de grandeza. Esperança.

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