Indiferença [julio wong]

Olinda - óbvio. 



Uma das melhores coisas dos psicofármacos, que até faz pouco tempo eu abominava, é atingir o estado de indiferença

Antes de mergulhar no uso deles eu sofria demais. Agora estou virando fã dos seus efeitos imprecisos. Um fã crítico e irônico, mas admirador sim.

O tanto faz veio me iluminar. Claro que sei que é efeito deles. Mas tanto faz

Antes eu me fazia enormes bolas para dizer coisas encravadas no passado ou na culpa. Agora tanto faz e solto o verbo.

Antes se eu fosse afastado ou questionado eu sentia uma faca no peito. Me sentia um idiota apaixonado em um mundo de iniquidade. Uma angústia enorme. Agora tanto faz

Não somos os mesmos. Somos estranhos que a cada dia se distanciam mais. Tanto faz. Cada um com seu rumo. Como milhões de pessoas. Tanto faz. 

Pelo menos tivemos Casablanca. 

Sonhar. Planejar. Imaginar coisas próximas em comum são absurdos. Motivo de preservação de proteção de arames farpados. Tanto faz. 

O mundo dos comprimidos é maravilhoso. Entre o sono profundo e o agito da dopamina eu nem ligo coisa com coisa. Me protegem essas bolinhas.

Provavelmente no fundo há feridas se formando. Mas tanto faz

Mundo é cheio de gente. Vistos de longe somos quase todos parecidos. Por isso tanto faz um ou outro. Podemos ser intercambiáveis. 

E assim a vida se passa. Abrindo e fechando portas. Só esperando os finais. O não ser mais o mesmo. O procurar outros caminhos. O tanto faz do passado. O talvez do futuro. 

Ou a morte em vida. Tanto faz. 

Nos intervalos até que escrevo coisas bonitinhas. Inofensivas. Exercícios de estilo. Coisas para ler no ônibus e esquecer. Tanto faz. 

Estou adorando a indiferença. Inédita na minha vida. 

Quem isto inventou mereceu ser milionário. 

Bom domingo de mães felizes com presentes artificiais. Tanto faz. 

E obrigado ao meu psiquiatra. 





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