UMA POBREZA QUE GERA SIMPLICIDADE


 
Figura capturada na internet. 2017
Eymard Mourão Vasconcelos

Vivemos sob um imaginário que coloca o constante progresso, pessoal e social, como o grande valor. Assim, realização e desenvolvimento dependem de persistente esforço no investimento no nosso aperfeiçoamento e na lapidação da positividade de nossa imagem na sociedade. Esforço e mais esforço centrado em si e em nossa autopreservação.
Nossos grupos passam a ser instrumentos de nossa expansão.
Mas se puxarmos em nossa memória por aqueles momentos ou fases da vida em que experimentamos o mais elevado nível de paz, satisfação e felicidade, verificamos que eles não foram períodos em que possuímos algo especial, mas, em que nos perdemos em algo ou em alguém. E o, que fomos, fluiu.
A realização mais plena passa pelo acolhimento e pela entrega ao que está fora de nós. Pelo desapego ao esforço de cuidado para com nossa expansão pessoal. E desapego para com a preocupação com a autoimagem. 
Ser apenas o que se é. Apenas ser. Isso é muito. Há uma grandeza que fica abafada pela ansiedade de ser o que não se é, tolhendo nossa abertura de acolhimento ao outro. Uma grandeza que floresce com espontaneidade, de forma surpreendente, quando se é instigado pelo outro próximo.
Ser apenas o que se é. Controlar a vaidade. Pobreza de espírito. Tudo o que é fundamental ter é o que eu sou e as relações que estabeleço a partir dessa atitude desvestida. 
Apenas ser. Bens, reconhecimentos, títulos e conhecimentos especiais podem ajudar, contanto que a ansiedade de conquistá-los e mantê-los não me tire da simplicidade do que eu sou.
Retirar a atenção e a preocupação sobre si, para apenas ser. Isso não é descansar. Há muito o que fazer, mobilizado pelos outros ao redor. Não há nada mais difícil do que aprender a tirar a atenção de nós mesmos. O aprendizado para nos centrarmos no outro é uma disciplina.
A meditação baseada no silêncio interior, ao procurar afastar a mente da infindável elaboração mental interior e das preocupações, é um grande exercício. Aproxima nossa mente da experiência de perceber o que simplesmente somos.
A convivência social também tem forte pedagogia em direção à pobreza de espírito, se acolhemos e valorizamos as críticas, de amigos ou inimigos, justas ou injustas, bem elaboradas ou grosseiras, que estamos sempre recebendo. Os outros vêm melhor nossas sombras. Benvindos nossos inimigos e nossos críticos. Mas isso exige duro desapego com nossa imagem social.
Doenças, limitações, fracassos, envelhecimento, impotências podem também nos tornar mais conscientes da ilusão da busca de ser com muitos adornos e pompa. A morte, que se aproxima, anuncia a transitoriedade de qualquer bem além daquele que é apenas ser e bem conviver.
Minhas precariedades podem, assim, me ajudar a ser mais: ser o que sou. E, desse modo, assistir e se surpreender com a potência criativa e amorosa que se pode manifestar. Aí experimento um progresso não planejado e conquisto aberturas imprevisíveis. 
Experiências desse tipo vão dando confiança para aprofundar o processo de desapego com a autoimagem e o acúmulo de conquistas pessoais por esforço centrado no desenvolvimento individual. É preciso muita confiança para ir contra o que parece ser o grande valor contemporâneo.
  
Texto elaborado por Eymard a partir de reflexão de Laurence Freeman, da Comunidade Mundial de Meditação Cristã (fonte: http://www.wccm.org.br/ ), com a finalidade de torná-la mais adequada à sua própria jornada de aprendizagem.

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