CADERNINHO



Maria Amélia Mano

          Quando o barulho de todas as chuvas em tetos de zinco me embalar o sono. Calma que acorda quando o menino grita no sinal: sete panos a dez reais! E eu olho da janela do ônibus os desenhos de corujinha pintados a mão que minha mãe pode gostar. No pano ao vento. Nas mãos do menino no sinal. Dá tempo não. Velocidade. Menino vai ficando longe, pequeno. Cidade de distâncias. Lembrança terna de tarde no pé de serra. Velhinho explica que já não existem as mesmas cidades, que as cidades mudaram de nome e os vilarejos viraram cidade. São João do Aruaru ainda é São João do Aruaru. Imagino as pessoas com cadeiras nas calçadas. Bandeirinhas coloridas em cordões. Fogueira e festa. Junho. Parque e sorvete de cajá, sorver-te cá já com olhos de paixão. Roda gigante e menino, menina. Meninas do interior brincando que tijolo furado é edifício. Cada furo uma casinha e uma família, uma história pra contar. Ideias e lembranças soltas. Buzina que dispara na frente da base militar e o medo dos homens fardados, da professora e da vacina. Crianças. Aventura pra se contar como o dia em que nos perdemos na mata procurando galho pra árvore de natal. Lavouras, quintais e jardins. Na tevê, as plantações de rosas na Colômbia e mulheres no cultivo que se pintam. Se enfeitam porque trabalham com rosas. É preciso ficar bela para trabalhar com rosas. Porque rosas são belas. Perfumes. Cidreira com capim santo, hortelã, leite de gergelim. Receita pra virose de mosquito. O que se escolhe ver: doença ou cuidado, terra, rosa, batom, ternura em avental de vó. Depende da sua paixão ou da sua razão. Confusão de lembranças que invadem. Como feupa de madeira no dedo, calo, bolha no calcanhar depois da caminhada, cisco no olho, cabelo no prato, pedra no feijão, poça d'água, nariz entupido, coceira, tropeço, incômodo pequeno. Dor pequena e grande: cotidiano. Pequena bala de revólver que atravessa a rua, a escola. Professor de música que cantou no tiroteio. Fez criança não ver tristeza, ter esperança na canção. Orquestra da Grota. Escrevo em lugar imaginário o sonho que lembro por partes. Era frêmito de passarinho na mão. Como vida frágil que começa. Como quando se abraça e se sente o soluço do choro, respiração que corta, que busca, que se aprofunda. Como bebê que se move na barriga, pela primeira vez. E surpreende. Prefiro surpresa a suspense. Rumores do universo. Alguém espera o menino dos panos de prato voltar com o troco do dia. Ninguém sabe que existem bandeirinhas no céu de São João do Aruaru. Diversões, aventuras e medos de meninas ficaram em terra distante do coração. As mulheres pintam os lábios para as rosas e a terra e uma receita de chá de ervas me cura da cidade. A música do violino dos meninos da periferia atravessa a alma das ruas, como o cisco que faz a lágrima cair. Abafa a bala e a dor, a pequena e a grande dor do dia. Quando as gotas de chuva embalam a vida que começa na minha mão e sonho. Rabisco no caderninho ainda. Sorrisos e esperançasUm dia, poder desenhar todo o caos em palavras.  Minhas pequenas imensidões.

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