ESSAS COISAS VIVAS III


Maria Amélia Mano

Helena ausente, mas presente, sempre. Ela que me ensinou sobre as coisas vivas com as conchas do mar que voltei a me banhar. Também me ensinou sobre a morte quando me contava da corda bamba em que se atirava, sem rede de proteção: vício, vírus, noite, rua, novo amor.

Quis ser mãe. Recomeçar em novo sonho. Novo corpo, quem sabe.

Primeiro uma gravidez sem exame confirmatório. A psiquiatra me ligava preocupada. Psicose. Eu seguia fazendo o pré-natal imaginário, esperando o tempo resolver o que o desejo não deixava. O que a esperança teimava em seguir sem nenhuma razão. E o leite saia dos mamilos como promessa.

Helena não pariu seu mistério, seu recomeço. Abortou em realidade e insistiu. Perseguiu. Até que ele veio em salvação e batimento de coração no ventre aumentado. Gestação. Risco e exames. Felicidade. Antes que o sangue mostrasse que ainda não era hora de um filho, Helena descobriu que era sã...

Sim, um exame negativo em anos de uso de antirretroviral. Milagre ou erro. Advogado, revisão de prontuário, relatórios e justificativas. Caso único, raro. O que aconteceu? Da dor da perda, Helena renasceu. Do sangue do filho que não veio, a certeza de que a vida dava uma nova chance. Ela sempre dá.

E então, foi morar na praia. Sonho antigo. Trabalhar em galpão de reciclagem limpo e bonito que parece shopping. Terminou com o companheiro que decepcionou. Saiu de uma religião e entrou em outra. Igreja de bairro, de canto, de festa. Mudou tudo, porque tudo pode mudar. Pode ser revolução.

Sei de Helena pela irmã que me conta dela. Helena que me ensinou sobre vida, morte, recomeço a qualquer preço. Esperança que produz milagre. Helena na praia. Helena feliz, com saúde. Quase mando recado. Peço que Helena me traga uma concha, a primeira que ver, a concha que fala e ensina e é cheia de histórias e memória. Está viva. Como a nossa capacidade de sonhar e mudar.

    
Para entender Helena:
Essas Coisas Vivas I – publicada em 14/07/15
Essas Coisas Vivas II – publicada em 10/11/15

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